sábado, 9 de janeiro de 2010

Vou morrer de abandono nos teus braços
Mesmo que não queiras
Mesmo que nem saibas
Vou morrer de abandono nos teus braços

Se me queres, dou-te
Sou tua sou ninguém além de ti

Descanso em teu peito
A vida que carrego
És meu amparo

Meu desejo é teu
É o teu

Peço
Suplico
Deixe-me morrer de abandono nos teus braços

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Que queres que te diga?
Que mulher queres que eu seja?

Posso ser o que pedires
Perfeita
Sublime
Augusta

Frágil
Incompleta
Delicada

Sou teu espelho
Tua esperança

Tudo que desejares

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Atravessamento da angústia e satisfação

“a ausência de sentido é perfeitamente compatível com a coerência” M. P. S. Leite

Diante do enigma primeiro a respeito do desejo do Outro, ou, como nomeamos, Desejo da Mãe, a criança constrói sua resposta, arruma seu sentido: o que será denominado Nome do Pai. A metáfora paterna daquilo que surgiu como o que causou a primeira fratura narcísica no ser, apazigua o sujeito com a descoberta da fórmula que supostamente o restauraria ao lugar do ideal. O Nome do Pai vem então como o substituto daquilo que tirou da criança seu lugar da completude com o outro. Diante do enigma: “Che vuoi?” – “Que queres?”, o sujeito articula uma resposta. O que falta ao Outro o sujeito o nomeia: é o Nome do Pai.

Porém, esta nomeação que dirige o sujeito, fundamenta seu ser na medida em que lhe confere uma identificação, mostra-se como falha. Em algum momento, este nome que aparecia como garantia e verdade, torna-se inconsistente.

Quando este sentido nomeado não se sustenta diante dos fatos, do Real, vemos o aparecimento da angústia. O “Che voi?” retorna com o aspecto de puro estranho, sem respostas e sem sentido. “A angústia (...) está ligada a tudo o que pode aparecer no lugar (-φ) (...) Esse fenômeno é o da Unheimlichkeit.”[1]

Dizemos que a angústia é um afeto que não engana. O que quer dizer que é o confronto direto do sujeito com o Real, sem velamentos. É o confronto direto com este lugar em que nada falta, que aparece como Coisa, grandiosa, desmedida, sem contornos, “certeza assustadora”[2]. Vazio consistente, nada, puro sem-sentido, devorador do sujeito é este objeto que na angústia aparece como estranho.

Qual é o tratamento para a angústia? Em psicanálise falamos de um atravessamento da angústia. Do que se trata atravessar a angústia? Atravessamento da angústia seria o caminho que o sujeito percorre na sua relação com o objeto, objeto como estranho, para o objeto como causa de desejo? O objeto estranho é o mesmo objeto causa de desejo? Em que se diferenciam? Como se pode fazer do objeto que aparece como estranho o objeto que causa o desejo? Estas são as questões que norteiam minha pesquisa neste cartel.

Iniciemos pelo tema do objeto a. “O objeto a não é um significante...”[3] “O objeto a não é um ser, ele é um vazio. O que chamamos objeto a é a inadequação da demanda.”[4] Isto é, o que da demanda não diz respeito ao desejo. Do que o Nome do Pai não corresponde ao Desejo da Mãe. É esta sobra, este vácuo existente, este excesso não nomeável. Este buraco, este lugar onde um não corresponde ao outro é o objeto a. Por isto ele não tem nome, por isso não há um objeto a como significante. a é “o objeto que funciona como resto da dialética do sujeito com o Outro”[5]

Se o objeto a tivesse uma existência significante, somado ao Nome do Pai restauraria o sujeito como não barrado, como eu ideal. O simbólico seria sem furo, corresponderia ao Real. Seria o fim da castração. Seria então a mortificação do desejo. O objeto a é causa de desejo porque não é significante, porque é furo, nada, vazio.

Furo, nada, vazio, ausência da falta. Quando aparece ao sujeito, quando a fantasia e os nomes que serviam para apaziguar a relação com o Real não se sustentam produz no sujeito o encontro com o que é sem palavras. Angústia é o nome que podemos dar para isto. Aqui este objeto de puro nada aparece ao sujeito como estranho. No sentido freudiano, o que há de mais estranho e mais familiar. Angústia constituída que paralisa o sujeito, que diante do sem limites; da ausência da falta, do furo onde se insere o sujeito, não lhe dá saída, não lhe dá palavras.

Porém Lacan nos adverte que a angústia é o caminho que “revivifica toda a dialética do desejo, (...) é o único que nos permite introduzir uma nova clareza quanto à função do objeto em relação ao desejo”[6].

O que pode tirar o sujeito da angústia e levá-lo a satisfação? Pensamos em duas saídas para angústia:

1) satisfação pelo tamponamento da falta, pela via dos objetos suplentes (mais-de-gozar).

No capitalismo os bens de consumo e as prestações de serviço se propõem a estabelecer a satisfação do indivíduo. Através das múltiplas possibilidades do uso de substâncias tóxicas, das ilícitas às da farmácia, se oferece a possibilidade de o sujeito sair do que lhe faz sofrer. No consumo dos objetos do mercado se encontra incessantemente objetos que obturam o que falta. Também podemos falar no encontro com o objeto amoroso. São encontros possíveis com que supostamente restauraria no sujeito um estado de completude e garantia. Dizemos que esta é a satisfação narcísica pela via da completude pelo encontro com o objeto. Porém, este objeto que promete o tamponamento do vazio que aparece como estranho ao sujeito, joga-lhe no abismo sem fim do mais e mais objetos, das outras e outras drogas e devastamento no campo amoroso. E assim, ao invés de apaziguar a dor, o que é possível por alguns instantes, abre ainda mais este furo, corrói a fratura íntima, e lança o sujeito não só no estado anterior da angústia, mas também no estado de impotência. Se dizemos que a angústia é um afeto que não engana, podemos dizer que a satisfação possibilitada por estas vias é um afeto que certamente engana.

2) satisfação pelo consentimento do furo e reconfiguração do objeto para causa de desejo.

Na psicanálise lacaniana, a idéia de fim de análise se remete à satisfação do sujeito. Logicamente não se refere a mesma satisfação que impera no discurso capitalista.

Lacan no texto prefácio do Seminário XI, diz que no final da análise há satisfação. “o único término da análise é a satisfação que marca o final da análise”[7]. A satisfação daquele que foi analisante. De que satisfação se trata? A pulsão se satisfaz por inteiro no fim de uma análise? Ou o sujeito se satisfaz com a parcialidade da satisfação da pulsão? Ou já que a pulsão sempre se satisfaz, qual é a diferença em relação à satisfação obtida no fim de uma análise?

Uma análise se concebe na esperança ilusória de cercar o Real com o Simbólico. E com o Simbólico se faz “florir o imaginário”[8]. O desejo do analista, com sua função simbólica faz surgir o inconsciente transferencial. E como Outro que se corporifica, faz acontecer a questão: O que quer o analista? Isto lança o sujeito ao querer saber, à construção de saber, à busca da verdade última que diga sobre seu ser no mundo. “Numa análise trata-se de reconduzir o sujeito aos elementos absolutos de sua existência contingente”[9]. Neste sentido, uma análise é uma experiência que consiste em construir uma ficção. Porém, em contrapartida, também é uma experiência que consiste em desfazer essa ficção. “A psicanálise não é o triunfo da ficção. Nela a ficção é posta à prova de sua impotência em resolver a opacidade do Real”[10]. Do aparecimento da verdade como mentirosa, acontece o rearranjo do sujeito ante suas identificações, queda do Ideal – esvaziamento superegóico. Em consequência, há um alargamento das possibilidades ante a contingência. É possível, assim, obter a satisfação pelo consentimento com a verdade como mentirosa. Porém, esta satisfação residiria em puro cinismo se não houvesse a possibilidade de cercar no nível do sujeito o que lhe aparece como singular.

No esvaziamento da cadeia significante, sobra o “initium subjetivo (...) só há aparecimento do sujeito como tal a partir da introdução primária de um significante, e do significante mais simples, aquele que é chamado de traço unário”[11].

O traço unário como anterior ao sujeito é o que possibilitaria nomear a borda do objeto que sem ela aparece como estranho e desmedido? A hipótese aqui levantada é que o objeto como causa é aquele em que o sujeito pode localizar a borda que contorna o nada, o vazio do objeto. A borda possibilita a imaginarização e também a simbolização deste objeto, e assim, amortiza o caráter aterrorizante do completo sem-sentido, ilimitado. A nomeação do objeto é a nomeação do que faz borda, já que o objeto mesmo não é significante. Assim, esta nomeação é o que possibilitaria a passagem do estranho para causa.

Na medida em que com o percurso de uma análise o sujeito depara-se com esta satisfação em relação ao não-sabido, ao sem-sentido, à noção de impossível, não poderíamos dizer que a satisfação que resulta do fim de uma análise é também, como a angústia, um afeto que não engana? Isto é, se a angústia é um afeto que não engana porque coloca o Sujeito em relação direta com o objeto (como estranho), esta satisfação obtida através de uma análise, a qual acontece pelo encontro do Sujeito com o objeto (como causa) não seria também um afeto que não engana?



[1] Lacan, J. O Seminário: livro 10 – A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 57.

[2] Lacan, J. O Seminário: livro 10 – A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 88.

[3] Miller, J.A. Orientação Lacaniana – Coisas de fineza em psicanálise. Aula XV, de 28 de abril de 2009.

[4] Miller, J.A. Orientação Lacaniana – Coisas de fineza em psicanálise. Aula XVI, de 06 de maio de 2009.

[5] Lacan, J. O Seminário: livro 10 – A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 252.

[6] Idem.

[7] Miller, J.A. Orientação Lacaniana – Coisas de fineza em psicanálise. Aula XV, de 28 de abril de 2009

[8] Idem. Aula VII, de 14 de janeiro de 2009.

[9] Idem. Aula V, de 10 de dezembro de 2008.

[10] Idem. Aula VIII, de 21 de janeiro de 2009.

[11] Lacan. Op. cit., p. 31.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Elogio ao Colégio Dehon

Quando estamos escolhendo a escola de nossos filhos, não é raro que sintamos a responsabilidade em fazer algo essencial para a vida deles; algo que deixará marcas em sua forma de ser. A escola é uma grande parceira dos pais no que concerne à educação da criança. Quando escolhemos, fazemos uma aposta, e o futuro nos dirá o quanto fomos contemplados.

Depois de muito pesquisar sobre as escolas de nossa cidade, apostei no Colégio Dehon, inicialmente pela serenidade e amabilidade (sim, as duas coisas podem estar juntas) com que fomos recebidos, pela indicação de amigos e também porque no dia em que conheceu a escola, meu filho demonstrou muita intimidade com o espaço, daquelas que sentimos quando já estamos há anos no lugar.

Escolha tomada, alívio sentido. Agora vamos ver o que acontece.

Já sabia, pela reunião em que fui conhecer a escola, e pelas histórias contadas por amigos com filhos matriculados lá, que o Colégio trabalha com “projetos”. Palavra da moda no meio pedagógico. Hoje é chic e moderno dizer que uma escola trabalha com projetos. Porém mais do que chic e moderno, trabalhar com projetos numa escola pode ser uma forma de mostrar a consistência de uma ideologia, e trabalhar honestamente para implantá-la na vida das pessoas que estão ao seu redor.

O Colégio Dehon trabalha com projetos e o de 2009, o ano em que meu filho foi matriculado nesta escola, recebe o nome de “A beleza de olhar o mundo”.

As esclarecedoras e detalhadas palavras das pessoas responsáveis por tal projeto, me fizeram concluir que A beleza de olhar o mundo é um saber-fazer com o mundo em que vivemos; é estar com os pés na realidade de nosso tempo e poder fazer um bom uso disto.

E de que mundo se trata, este dos nossos tempos? É o mundo da queda dos ideais, das autoridades, das garantias. É o mundo das experiências, das múltiplas possibilidades. É o mundo da fugacidade das verdades, dos valores e também das sensações e das escolhas. O que ontem era, hoje já não é mais.

Muitas vezes tendemos a olhar o mundo de hoje com um arrepio na espinha, um certo horror, um sentimento de calamidade. Tendemos a olhar para este mundo com o ar fóbico que em geral dirigimos para aquilo que não conhecemos.

Sim, são os fatos: os ideais estão em absoluta decadência; não se acredita mais na autoridade; as certezas são muito provisórias. Estes elementos eram até então aqueles que subsidiaram a educação das crianças: os ideais, a convicção e a fé na autoridade. No lugar disto que se foi, vemos crescer no solo de nosso tempo, junto com o desprezo à autoridade, uma voracidade enlouquecedora por experimentar o mundo. Experimentar o mundo pode querer dizer consumir, abocanhar o mundo. E isso tem deixados os novos personagens deste mundo obesos de experiências, alucinados de experiências, endividados de experiências e até mortos de experiências. Isto é o que nos deixa fóbicos diante deste novo tempo. Fóbicos diante do fato que nossos filhos crescem neste novo tempo em que os objetos de consumo estão no topo da importância em nossas vidas.

Estes objetos que são sempre obsoletos, ultrapassados, e que fazem com que vivamos muito mais na expectativa da nova experiência prometida, do que a que se pode sentir diante do que temos. Sim, o celular, o carro, a roupa que ainda não se tem, são sempre melhores, mais adequados. Sim, a droga que se experimenta na primeira vez, quando repetida não traz mais a mesma sensação, é preciso aumentar a dose.

O mundo em que vivemos é este, não é nenhum outro. O que passou ficou para trás. Se vivermos na nostalgia de outros tempos, ou se quisermos a todo o custo restaurar a antiga ordem, os antigos ideais, no mínimo ficaremos ainda mais distantes destes que nascem e que crescem neste mundo de hoje. Neste mundo das sensações, das experiências e dos objetos.

Podemos nos perguntar (e é justamente poder fazer isto que pode nos salvar do que nos horroriza nos tempos atuais): Como vamos viver neste novo mundo? Como vamos conduzir nossas vidas entre estes imperativos das sensações, das experiências e dos objetos? Temos algumas opções. Sempre as temos. Podemos querer abocanhar o mundo inteiro até que expludamos de tantas informações, comida, drogas, novas formas de se viver, sempre na esperança de uma próxima experiência que nos tire da tão humana insatisfação. Ou podemos olhar a beleza do mundo e valorizar a sensação das experiências que temos, sem a ilusão de que outros mais e mais objetos nos darão alguma garantia de plenitude; podemos nos entusiasmar com o que temos nas mãos, com os objetos que nos cercam, com os outros que nos cercam se não deixarmos nos enganar pela fugacidade do consumo e das experiências. Olhar a beleza do mundo também é ter relação com as sensações, com as experiências e com os objetos, só que de forma que nos permita viver mais tranquilamente, aproveitando, de fato, melhor a vida.

O alívio da aposta inicial me dá agora o entusiasmo e a alegria da convicção de estar compartilhando a educação do meu filho com quem está fazendo um bom uso do que temos em nosso tempo. Agradecimentos e elogios à equipe do Colégio Dehon!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sentir nada, sentir tudo

Maria vai ao postinho de saúde ver o médico e diz que nos últimos tempos está um pouco cansada, desanimada. Não sendo de se estranhar, leva consigo a receita de Fluoxetina; João diz que o sono não anda muito profundo e que ainda antes do galo cantar já não cabe mais na cama: leva umas duas miligramas de Rivotril. Ana conta que a Virgem Maria apareceu para ela, dizendo para não se preocupar com o filho, que este está sob os cuidados de si – lá vai um haldolzinho, mas só até ficar pronto o processo para o Estado fornecer o Zyprexa, que isto sim é que é moderno. Ah, Rogério fala que dia está meio deprimido, dia dá uma vontade enorme de agradecer aos céus pelo sol, pelo mar, pela mulher, pela vida. Advinhem? Um Carbolitium, sim senhor!
O tom de trivialidade e o diagnóstico simplificado à banalidade que se pode ler acima, seriam sem nenhuma relevância se não refletissem exatamente o que se passa em muitos lugares oferecidos para tratamento do mal-estar psíquico. Entre profissionais da saúde pública, repete-se, de maneira jocosa, que mais vantagem seria diluir na caixa d’água da cidade boas doses de fluoxetina e rivotril. Assim, se poderia tratar em longa escala este povo que em quase unanimidade se diz doente.
E que gente é essa, os que seriam supostamente beneficiados por fluoxetina e rivotril na torneira de sua casa? Não são os que tão distantes estão da tão sonhada felicidade? Daquele ponto de equilíbrio em que tudo, tudo deve funcionar bem, como os normais bem devem de ser? Quando é que vão se adequar à norma? A esta nova e moderna regra pela qual todo mundo tem que ser feliz?
É, neste momento de novos imperativos, felicidade é regra maior.
Poderíamos perguntar: – Mas como assim felicidade? O que é a tal da felicidade? Onde se encontra? Alguém já a viu por aí? Vende-se em supermercado?
Ao que alguma voz poderia responder: – Sim, vende-se sim! Em supermercado, pela internet, no morro, nas butiques de luxo, em vários lugares, mas principalmente na farmácia. E tem dois tipos básicos de felicidade, dá para escolher: podemos ter a felicidade de não sentir nada ou a felicidade de sentir tudo. Aí, fica ao gosto do freguês.
Esta mesma voz prosseguiria: – Ora, ora, por que sentir dor, tristeza, luto, se com um remedinho tudo se alivia? Sim, tristeza é doença em nosso tempo. E não querer aliviar é coisa de gente estranha, que se chama de corajosa, de sensível, de politizada, até de ética, mas na verdade mesmo, é esquisita. Masoquistas! Isto é o que são. Tanta indústria pesquisando o que alivia a dor de ter nascido e uns aí são do contra. É uma felicidade não sentir nada.
Nosso diálogo continuaria:
– Mas é possível mesmo não sentir nada, dor alguma?
– Sim, sim, é só aumentar a dose de vez enquanto, ou mudar o fabricante, e também, o negócio está sempre evoluindo, sempre coisa nova na prateleira.
– Mas é assim mesmo? E os tais efeitos colaterais? É tão fácil mesmo ser feliz?
– Efeitos colaterais? É... a maioria engorda um pouco, mas tudo bem, é só usar uma pílula de outra cor que emagrece. Bem, a cabeça também fica um tanto devagar, mas já dizem uns velhos sábios, quem pensa muito acaba enlouquecendo.
– E funciona bem para todo mundo?
– Ah, todo mundo, todo mundo, não. Uns aí não têm jeito, é o psicológico que atrapalha, aí paciência, nem Jesus agradou todo mundo.
A debilidade mental em troca de não sentir nada é uma versão da felicidade contemporânea. A indústria (ciência e mercado aliado) oferece uma ampla variedade de silenciadores do que é mais íntimo, que dizem, é o que faz sofrer. Amputa-se a dor e vai o sujeito junto. Algum preço tem que se pagar...
Há também uma outra felicidade, que é a de sentir tudo. Carpem diem! “Eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte”, é o que já dizia Saint-Preux, o protagonista da novela A nova Heloísa, de Rousseau, numa carta a sua noiva, quando vai para a cidade e descobre os novos tempos.
E já que tudo que é sólido se desmancha no ar[1], o hedonismo se marca como uma nova política do viver.
Este é o mundo das múltiplas possibilidades, da queda da perversão, já que quase tudo é permitido. O que vale é a experiência. E se oferta uma aparentemente mais incrível que a outra.
Sentir tudo é gozar, gozar, gozar, a marca feroz de um a pulsão de morte que se repete infinitamente numa avalanche de confrontos diretos com os objetos do tipo mais-de-gozar, que segundo já sabemos, ocupa um lugar de zênite em nosso tempo.
Já se foi o tempo dos projetos para o futuro, dos ideais, da preocupação mínima com “o que o outro vai pensar?”. E se esse outrinho não faz efeito algum, o Outro, aquele que, já fomos avisados, é barrado, desceu na escala de importância. O a passou a perna no A.
Neste último seminário de Orientação Lacaniana, Miller[2] nos faz recordar um discurso do profeta Zaratustra muito bonito e ilustrativo de nossas atuais preocupações:

“É tempo que o homem tenha um objetivo.
É tempo que o homem cultive o germe da sua mais elevada esperança.
O seu solo é ainda bastante rico, mas será pobre, e nele já não poderá medrar nenhuma árvore alta.
Ai, aproxima-se o tempo em que o homem já não lançará por sobre o homem a seta do seu ardente desejo e em que as cordas do seu arco já não poderão vibrar.
Eu vô-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.
Eu vô-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós.
Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já não pode desprezar a si mesmo.
Olhai! Eu vos mostro o último homem.
Que vem ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? – pergunta o último homem, revirando os olhos.
A terra tornar-se-á então menor, e sobre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga: o último homem é o que vive mais tempo.
‘Descobrimos o que é a felicidade’ – dizem os últimos homens, e piscam os olhos.”[3]

É da felicidade do tudo ou nada de que se trata a descoberta deste último homem descrito por Nietzsche. Desta que calando o caos de cada um, cala ao mesmo tempo o desejo, a possibilidade de amor e de criação.
E tem que ser assim radical: tudo ou nada? Não, há outras possibilidades. Uma delas é, nos termos lacanianos, o não-todo. Não-toda felicidade também é possível. Apesar de que o tempo corre de maneira desenfreada, atropelando os sujeitos com as promessas de totalidade e de gozo sem restrição, ainda se pode, de forma não-toda, marcar uma profunda diferença.
Sim, há outra possibilidade, aquela na qual o objeto muda seu estatuto. Deixa de ser o que se estampa ante aos olhos e aos outros sentidos como uma promessa da satisfação total e imediata, através dos outdoors, dos folhetins, dos receituários, dos experimentos, dos manuais científicos... Passa a ser outro, a própria fratura íntima do ser falante, que o instala no desejo, que lhe causa o desejo. Esta outra vertente do objeto possibilita a felicidade, não aquela das garantias totais, mas a que, sendo um sujeito, é possível.
“Aquellos que no retrocederem no les esta prometida la felicidad, pero si la alegria de hacer encontrado um truco para vivir mejor. Un saber a cerca de lo que causa el deseo nos otorga la posibilidad de eligir y de asumir sus efectos con todos sus consequencias.[1]

[1] Vilma Cocoz. Notas sobre la actitud del psicoanalisis. In: : El libro Blanco del psicoanalisis: clínica y política. Barcelona: RBA Libros S.A. 2006, p. 105.
[1] Berman, Marshal. Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
[2] Miller, Jacques-Alain. Sétima aula do curso Orientação Lacaniana – 2007/2008. 23/01/2008.
[3] Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martins Claret, 2005, p. 28-29.

sábado, 13 de setembro de 2008

O cartel e a formação do analista

Quando pensamos em uma escola, em geral, nos vem à cabeça um lugar onde passamos para aprender determinadas coisas que farão alguma diferença em nossa vida. Esta escola nos forma para o depois. Ela é um lugar de passagem, lugar que pressupõe uma verdade, na qual o que irá se modificar é a pessoa que a ela se submeter.
Mas, quando se trata de psicanálise, não poderíamos pensar em uma escola deste molde. Uma escola que forma para depois. Uma escola em que se pressupõe uma verdade, na qual os sujeitos podem se formar. Se numa escola psicanalítica, as pessoas estão em constante aprendizagem, não é para depois. Espera-se, nesta, que os sujeitos não se formem, ou não se sintam formados, a ponto de abandoná-la, como fazemos com as outras escolas. A formação em uma escola psicanalítica não tem fim, nunca chega à hora de se diplomar.
Mas por quê? Primeiro, porque já sabemos que a formação do analista nunca chega ao final. A formação é infinita. E segundo, porque a verdade, geralmente digno objeto de uma escola, não é, ou não pode ser, total numa escola psicanalítica. Esta escola nunca sabe o todo, nunca tem o saber absoluto. Mas apesar de saber que nunca poderá oferecer uma verdade totalizante, não cessa de se pôr à busca de mais saber. Porque quem, ou melhor, o que está em formação nesta escola, não são apenas seus membros ou quem ao redor dela se situa, mas sim a própria psicanálise. Se existe um aluno nesta escola que nunca se forma é a própria psicanálise. E é ela para a qual todas as atenções se dirigem, é para a formação dela que todos trabalham. É para que ela possa aprender a ser um digno instrumento para olhar e tratar o mal-estar da época presente é que se trabalha sem cessar.
Esta é a escola de psicanálise proposta por Lacan. Uma escola na qual o importante é o trabalho que cada um de seus participantes possa oferecer. Tendo o trabalho como centro da atenção dessa escola, Lacan, em 1964, cria o dispositivo do cartel. “Órgão de base da Escola”, “sede do trabalho da Escola”, como Lacan o nomeou, o cartel vai na contramão das estruturas burocráticas da instituição. É a porta sempre aberta da escola lacaniana. Entra quem quer trabalhar, aprender, começar ou continuar sua formação em psicanálise, ou apenas satisfazer alguma curiosidade temática.
Mas e o que é isto, o cartel? Esta palavra que em nosso vocabulário tem uma conotação ilícita, na psicanálise tem um significado específico.
O cartel se trata de um pequeno grupo de pessoas que se agrupam para estudar, um dos pilares da formação do analista (sabemos que Freud apontou um tripé necessário à realização no que diz respeito à formação do analista: estudo, análise e supervisão). Lacan sugeriu alguns pressupostos para o trabalho deste pequeno grupo: quatro pessoas mais uma se reúnem por um ou dois anos em torno de um tema de estudo. O mais um é não é apenas o cinco, tem a função de velar pelos efeitos internos do cartel, provocar sua elaboração, e também velar para que os efeitos de grupo, em geral causados pelo imaginário, não atrapalhem o seu andamento. Ele não é professor, nem coordenador. Pode-se dizer que é um líder, mais um líder debilitado. Ele é mais um na medida em que é mais um interessado no tema em questão. É esperado deste pequeno grupo chamado cartel que cada um dos membros possa chegar a um produto próprio. E no final, que estas pessoas possam apresentar suas produções individuais à comunidade analítica e em alguma medida causar-lhe um movimento. Ao final deste período de estudos e desta apresentação das produções à comunidade analítica, o grupo se dissolve. Seus membros agora novamente solitários podem formar outros cartéis a partir de novos temas de interesses com outros interessados no mesmo tema.
Há, sobretudo, neste grupo, um caráter anti-didático. Não há um mestre de prestígio que dite um ensino e alunos que o amem por seu saber. A cada um cabe a implicação de autorizar-se a pensar por conta própria. “Há aí a aposta de que entre a possível elaboração coletiva e a particularidade da enunciação de cada um, se avance um pouquinho no saber à custa da ignorância”.
Neste sentido, o cartel tem característica provocadora. Ele é a certeza que sempre o novo será oferecido. Ele é a possibilidade mais viva de fazer com que as verdades não se cristalizem, de fazer com que o estudo e a reflexão sobre a psicanálise estejam em constante movimento.
Assim, o dispositivo do cartel trás para a psicanálise uma novidade. O cartel trás consigo uma máxima, que é o fato de que o “saber que a psicanálise produz não está pronto, não está preparado, não se trata de um saber que é preciso aprender, não se trata de descobri-lo, trata-se de inventá-lo”.
Todas as pessoas que estudam psicanálise, sabem que a psicanálise tem uma teoria muito viva. Se os críticos dizem que a psicanálise é ultrapassada, que Freud a inventou num outro tempo, dizem isto certamente baseados na ignorância. Sabemos que o próprio Freud reinventou a psicanálise tantas vezes quanto os fatos lhe foram impostos. Freud não se deixava levar pelo narcisismo na medida em que mostrando a ignorância e revisando suas próprias idéias levava a psicanálise à atualidade por ele vivida. Lacan assim também o fez, reiventou a psicanálise para que pudesse ser um instrumento para tratar o mal-estar de sua época. É a isto que somos convocados: a todos os dias, diante dos novos pacientes, reinventarmos a psicanálise. Não com as garantias que equivocadamente pensamos encontrar no discurso do mestre, mas com a vivacidade de saber fazer com o que nos é apresentado.
O cartel é este lugar da formulação de novos saberes, aonde a ignorância é muito bem vinda, já que não é marcada pelos ranços das verdades convictas. Basta ter o desejo de saber, ainda que pequeno e não esperar pela resposta do mestre.
Poder abrir mão do mestre e também de ser o mestre é a convocação que se faz diante desta aposta de formulação de saber. E este não é um dos achados que alguém em sua formação como analista deva se deparar? Penso que esta é uma questão que torna o cartel um elemento indispensável na formação de um analista.
A respeito do cartel pode-se dizer que é um bom modo de não se estar sozinho, nesta função que nos impõe tanta solidão, que é a prática analítica. Sabemos que no trabalho analítico o analista está só, e que assim é preciso. Mas fora do consultório não se precisa estar só. Não é bom que o analista esteja só, mais ainda, é impossível!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

do Nome-do-Pai a uma père-version

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!”[1]

Sabemos que o neurótico é aquele que precisa inventar o pai para dar conta de um gozo no corpo, para dar conta deste gozo que aparece como excessivo, imenso. Ante o irrepresentável que emudece, o neurótico é aquele que inventa um Nome. Pede ao pai um Nome. Pede ao pai que dê sentido, significação, àquilo que aparece como fora do campo das significações.
O que justamente acontece com o neurótico é que ele pode acreditar neste Nome dado que supostamente esconde isto que é sem controle, o real. E ele realmente acredita. Passa a usar esta nomeação como um escudo ante o incompreensível, ante a contingência. A esta nomeação, em psicanálise, nomeamos, entre outros nomes, como Nome-do-Pai. Este é o grande responsável por possibilitar ao sujeito o encontro com o outro, isto é, leva-o à possibilidade do laço social.
E o que é um pai? Em psicanálise, entendemos que um pai é aquele que separa a criança da mãe, de uma boa maneira, “quer ele queira ou não”. Assim, a palavra pai ocupa o lugar de função.[2] Lacan é aquele que “liberta o pai freudiano da situação concreta, familiar, em que aparentemente estava localizado. Invertem-se os dados: em vez de ‘O pai é a origem’, teremos ‘O que for, para um sujeito, a origem será o pai’”[3].
Nas palavras de Esthela Solano-Suarez, “o Nome-do-Pai, na psicanálise, é um instrumento para resolver o gozo pelo sentido”[4].
Leonardo Gorostiza diz que a função paterna é dar ancoragem ao sujeito. Uma ancoragem de duas faces: de um lado identificatória e de outro como reguladora dos modos de satisfação. “Sem esses pontos de apoio e regulação, fonte de produção de sentido, o sujeito cai – literalmente – à deriva.”[5]
No texto “A outilidade do pai”[6], Sérgio de Campos nos lembra que um pai serve como bússola, como guia moral para um filho. Ante uma criança, ele oferece segurança, e serve como fonte de identificação. É “uma muralha alta e espessa, (que) interpõem-se entre a criança e as necessidades vitais, as responsabilidades da vida, as dores do mundo e os riscos de morte. O pai, portanto, serve como uma muralha em cuja sombra o filho floresce”.
Mas se o neurótico usa este Nome-do-Pai para se identificar e também para tornar possível o seu encontro com a satisfação; mas se o neurótico acredita muito neste Nome ao ponto de fazer grande esforço para sustentá-lo como um Nome potente; mas se o neurótico usa este Nome para responder a si o que quer o Outro e poder seguindo a vida nesta crença, sabemos que hora ou outra, este Nome vai padecer, vai falhar, não vai responder com garantias àquilo que não tem medida, nem nunca terá, que não tem governo, nem nunca terá, mas que pelo menos podemos dar um nome: Real.
Quanto à muralha, “com o crescimento da criança, reduz sua altura e sua espessura até o momento em que se pode perceber, por intermédio de suas falhas, frestas e rachaduras, que não é, nem foi, tão resistente e segura quanto se imaginou”[7].
A angústia surge então como uma das possibilidades de resposta ante ao fracasso deste Nome. Deste nome que vez ou outra se torna muito pequenino e impotente. O sintoma também é prova da falha do Nome. O sintoma também pode ser a prova do esforço do neurótico para dar consistência ao Outro. E se o Nome-do-Pai está em decadência na cultura é por pura repetição do que acontece no nível do sujeito, com o crescimento da criança. Talvez tenhamos crescido no nível da cultura, ao ponto de percebermos a falência do pai.
Sabemos que um sujeito até pode se virar bem com seu sintoma, vez outra sofrendo, com angústia, quem sabe... Pode ser que um sujeito não queira nunca abrir mão de seu sintoma, e de seu esforço em dar consistência ao Outro. Felizmente também sabemos que para àqueles que sofrem de um mal a mais (Plus de mal), e que por contingência da vida puderam encontrar um analista, há o que se fazer.
E qual é a operação efetuada em uma análise no que diz respeito a esta nomeação paterna? Seria função de uma análise restaurar a imagem do velho pai? Seria função de uma análise fazer com que o sujeito desconsidere o pai?
Lacan, no Seminário 23[8], traz a expressão l´homme pours-père. Em um jogo com a palavra pours-père encontra-se uma ambigüidade: o pai faz o homem prosperar, e o homem é a finalidade do pai. Somado a estas duas, outro sentido homofônico: pourrir en espérant, que significa “apodrecer esperando”. Assim, na mesma medida em que se pode prosperar a partir do pai, também é possível apodrecer esperando que este Nome continue dando sentido, continue sendo equivalente ao demandado. Que o pai tenha sido útil ao ponto de interpor-se entre a criança e o desejo da mãe; útil em preencher um pouco o buraco sofrido pela extração de um objeto, não permite que se possa esperar que seja potente para sempre, ao preço de se apodrecer esperando.
Sérgio de Campos com sua bela metáfora nos auxilia: “Reduzido a um semblante, o pai faz com que o filho passe a enxergar o mundo por cima de um frágil biombo de papel, sendo esse, via de regra, um momento de metamorfose vivido como luto, em que ele prescinde do muro (do pai) depois de ter se servido dele”[9]. Nem restaurar a imagem paterna, nem desconsiderá-la, mas fazer um nome próprio deste que lhe foi dado como herança. Formular uma pére-version, agora com letra minúscula, sem o peso do Ideal, e também precedida por artigo indefinido (uma) já que pode também ser outra.


[1] GALEANO, Eduardo. A função da arte 1. In: O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2000, p. 15.

[2] LAURENT. Éric. Um novo amor pelo pai. In: Opção Lacaniana, n. 46. São Paulo, 2007, p. 20-29.
[3] VIEIRA, Marcus André. Retrato falado de um totem sem tabu (ou a hipermodernidade sertaneja). In: Latusa, n. 11. Rio de Janeiro, 2006, p. 13.

[4] SOLANO-SUAREZ, Esthela. Gozo. In: Scilicet dos Nomes do Pai. 2006, p. 67.

[5] GOROSTIZA. Leonardo. Autoridade. In: Scilicet dos Nomes do Pai. 2006, p. 25

[6] CAMPOS, Sérgio de. A outilidade do pai. In: Curinga, n. 23, Nov de 2006. EBP-MG, p.74.

[7] Idem.
[8] Conforme referência de Sérgio de Campos. Op. cit.
[9] Idem.

sábado, 30 de junho de 2007

verdade, fantasia

Para que serve a fantasia? Para que serve a imaginação? Para que servem estes artefatos que nunca dão conta da verdade?
Eu não sou o que eu pensava. O outro não é o que eu pensava. E o que ele quer de mim? Só posso imaginar, fantasiar, interpretar e assim, me enganar. E esta fantasia se veste com a roupa da verdade. Roupa tão justa, tão colada, número perfeito, corte perfeito.
Perfeito? Até o dia em que o Outro nos surpreende com a não aceitação do objeto que fabricamos com tanto esforço, com tanto suor e com a certeza de que é exatamente este objeto o que o Outro queria de mim. O Outro o recusa! Mas não era o que ele queria? Então, o quer o Outro de mim? Eu não sabia o que ele queria? Eu imaginava, fantasiava e me enganava. Pura ilusão!
E por que nos enganamos? Por que criamos historinhas explicativas a respeito de nossa vida, a respeito do outro e a respeito da natureza? Por que ficamos com a forte impressão de que estas historinhas contadas são A verdade? Por que temos que dar sentido às coisas?
Aprendemos que quem vive no esforço de dar sentido às coisas é o neurótico. Então seria a ciência uma neurótica?
Os neuróticos estão a todo tempo remetendo seus acontecimentos a uma explicação qualquer... científica, religiosa, psicanalítica... Estão sempre articulando significantes para dar conta da verdade do que lhes acontece.
Mas para que se queixar disto? Aliás, não é da falta disto do que nos queixamos quando pensamos os novos sintomas? Era baseada nestas historinhas possíveis contadas pela pessoa submetida à análise que a psicanálise estabelecia sua técnica. E agora, diante dos que não conseguem articular alguma causalidade no que diz respeito ao que lhe acontece, temos que reinventar a psicanálise.
Mas não é dos novos sintomas que se trata este trabalho, e sim dos velhos. Das velhas formas de articular a própria existência a alguma fantasia originária.
Podemos perceber como a necessidade de dar sentido ao que nos acontece acompanha, talvez cada vez menos, a nossa existência. É famoso o questionamento infantil a respeito de tudo que podem perceber a sua volta. É vulgarmente conhecida a existência de uma fase infantil que se chama a fase dos por quês. As crianças querem saber os por quês de tudo o que está a sua volta. Querem saber sobre a origem da vida, sobre a diferença dos sexos, e também sobre outras coisas aparentemente menos significativas.
Assim, diante de nossa ignorância criamos explicações fantasiosas que acabam sendo estabelecidas como as verdades de nossa existência.
Mas a pergunta ainda persiste: por que não nos contentamos com o fato sem querermos as explicações sobre sua origem? Há quem diga que para dominar a natureza, o homem precisou conhecê-la. Buscando a origem, se pode prever os fatos e dominá-los.
E o que pode dizer a psicanálise a esse respeito? Como dito anteriormente, a técnica psicanalítica, na sua origem, se baseia, sobretudo, na articulação causal que o paciente pode fazer no que diz respeito a sua queixa.
Em Freud podemos nos remeter a idéia de que essas histórias contadas pelos pacientes a respeito de seu sintoma e de sua vida, têm ligação com o fato de que diante da falta estabelecida pela castração, precisam criar algum artifício que os levem a crer na completude originária, bem como na possibilidade de readquiri-la.
Ainda, freudianamente, podemos citar a passagem do Eu Ideal para o Ideal de Eu como causa das invenções do homem frente a sua própria existência. Com o Eu Ideal temos a noção de completude, de que se é o ideal, de que se é todo e completo. É na mítica fusão inicial com a mãe que se estabelece a crença neste momento de completude. Mãe e filho num único corpo formando um todo. Ainda podemos dizer que diante da primeira insatisfação, o bebê alucina o peito da mãe. Nega aí a falta e cria uma ilusão. Possivelmente a primeira dentre muitas ilusões que vamos inventar na vida.
Constatamos assim, a idéia de que há, na psicanálise freudiana, o momento da completude. O todo existe! Mesmo que seja perdido.
Porém, a castração se impõe. A realidade se impõe. E diante desta realidade, e acreditando na idéia de que em algum momento éramos Todo e Ideal, criamos uma história cuja qual se crê que poderá nos restituir como completo no desejo do outro. Criamos um Ideal de Eu, aquilo que segundo se acredita, se alcançado, nos levará a ser novamente perfeitos.
Já em Lacan, não mais a realidade, é o Real o que se impõe. O Real contingente, insuportável, sinistro, não pode ser encarado pelos humanos a olhos nus, assim, vestimos os óculos da fantasia. O Imaginário e o Simbólico nos protegem dele.
O Imaginário e o Simbólico disfarçam o Real e assim, defendem o sujeito deste insuportável que é o sem sentido da existência.
Fantasia é o nome que damos a estas histórias imaginadas a fim de apreender o Real. A fantasia tem agregada em si o Simbólico, o Imaginário e também o Real.
Estas historietas permitem algum contato com o real, elas servem ao mesmo tempo, e em um mesmo movimento, para escondê-lo. (...) Elas vêm tapar o buraco onde o real ameaça penetrar. A primeira e mais fundamental maneira de fazê-lo é dando sentido. A fantasia é assim um conto imaginário que tem uma vertente simbólica/significante e também uma vertente real (VIEIRA, p. 10).
Lacan, no avesso da psicanálise diz que “...nós, seres de fragilidade, temos necessidade de sentido” (Lacan, p. 13, 1992). E este sentido não pode ser dado senão como construído numa fantasia. A fantasia, diz Lacan, é um real que esconde a verdade.
Mas o que é a verdade? Ainda seguindo o Lacan, dizemos que a verdade é algo que se situa entre nós e o Real. A verdade não é o Real.
Enquanto em Freud a relação analítica é fundada no amor à verdade, em Lacan, a ênfase está no “que escapa ao sentido, ao que ultrapassa tudo que é da ordem da verdade mas que manifesta algo de mais cru e duro (...). A verdade é impotente, ela faz ficar vagando em seus mortíferos labirintos” (CERVELATTI, p.1,).
Assim, numa análise, todas as histórias contadas, todas as associações e formações do inconsciente, surgem nesta dupla função: dizer sobre a verdade do sujeito e ao mesmo tempo velá-la. Mil histórias contadas e articuladas a mesma cena. Mil associações possíveis. O que fazer com tudo isto? Onde paira o Real no meio destas invenções fantasmáticas? No esgotamento desta arte inesgotável de dar outros possíveis sentidos, surge a pergunta: o que resta para além destes possíveis sentidos a serem dados? “Producimos más sentido del necesario. Producimos sentido em exceso al punto de ser asfixiados por él.” (MALENGREAU, p. 3, 2006).
Não fique doido por uma verdade, diz Lacan. O inconsciente, “a máquina de dar sentido”, inventa, como a maior das defesas, a própria verdade. Como instrumento do trabalho do psicanalista, a verdade é traiçoeira. Ela engana, faz pensar que deve sim existir uma verdade última, ou um sentido último.
“O percurso da análise deve então seguir a retomada destas histórias e o progressivo esvaziamento de seu valor pulsional até que se chegue a uma formulação mínima, onde não há mais dentro e fora, nem sujeito e agente (...) As histórias continuarão lá, mas o sujeito, menos escravo de seus dramas, pode então adquirir uma maior leveza (e não uma maior liberdade) com relação à cadeia de suas determinações. É uma maneira de entendermos a conhecida afirmação freudiana segundo a qual a análise transforma a tragédia do neurótico em drama banal” (VIEIRA, p. 10).
E assim, que se possa concluir que “...no es necesario mucho sentido para vivir. Um poco de saber-hacer com aquello que no tiene sentido alcanza.” (FINK, p.3, 2006)



Referências Bibliográficas

CERVELATTI, Carmem Silva. Não fique doido por uma verdade. (Site EBP)
FINK, Bruce. Fantasias y el fantasma fundamental: uma introducción. Virtualia – Revista Digital de la Escuela de la Orientacción Lacaniana. Jun/Jul-2006
MALENGREAU, Pierre. El acto, aún. Virtualia – Revista Digital de la Escuela de la Orientacción Lacaniana. Jan/Fev-2006.
MONTEIRO, Elisa. Sintoma, fantasia e pulsão. 1997. (Site EBP)
NUNES, Laureci. A descoberta freudiana da fantasia fundamental. In: Fênix.
LACAN, Jacques. O Seminário – livro 17: o avesso da psicanálise. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1992.
VIEIRA, Marcos André. Da realidade ao real – Jacques Lacan e a realidade psíquica. (Site EBP)

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Sujeito Suposto Saber

Como é sabido pelos estudantes e afiliados da psicanálise lacaniana, um dos motivos que gerou o rompimento de Lacan com a Associação Internacional de Psicanálise, diz respeito ao lugar ocupado pelo analista. Os analistas da instituição mais ortodoxa da psicanálise não gostaram de ouvir que não são muito mais do que ocupantes de um lugar de suposição. Lacan deu ao analista o título de Sujeito Suposto Saber.
Aos analistas da IPA, isso soou ameaçador, como se com tal esclarecimento fosse, de fato, perder sua função, como se fossem realmente cair em descrédito. Lacan anunciou a nudez dos Reis da Psicanálise, e esse encontro com o Real da função analítica não poderia deixar de presentificar-se na forma de mal-estar.
Mas o que aqueles analistas parecem não ter aprendido com Freud, é que a teoria e a prática da psicanálise nos mostram que o que se diz a um paciente só tem alcance se encontra eco nos referenciais psíquicos deste, ou melhor, os seres humanos não podem ser tocados subjetivamente por uma informação que não participe de seu conteúdo psíquico.
Neste caso, o fato de o mestre dizer que não é o mestre, depois de ter sido reconhecido como tal por alguém que se subordinou nesta relação, não alcança nenhum reconhecimento significativo no outro.
Sócrates, o sábio que nada sabia, já era bem sabido neste assunto. Não hesitou em dizer o tão conhecido aforismo “sei que nada sei”. Apesar do impacto causado pela afirmação, ou talvez, por causa disto mesmo, Sócrates a mais de dois milênios ocupa lugar central, como mestre, no discurso e no imaginário de nossa cultura. Talvez, porque somente os que sabem muito podem, sem preocupação, nem constrangimento, colocar este lugar de saber a disposição.
O lugar que o mestre ocupa só se desfaz quando o que está submetido sai desta condição a partir dos questionamentos feitos a respeito de sua posição de submissão, isto é, quando se questiona sobre si mesmo e não sobre o outro.
Então, se aqueles analistas sentiram-se preocupados em perder a função de analistas pelo questionamento interno sobre seu lugar de mestria, realmente foram dignos de sofrer as duras críticas de seus dissidentes. Analistas que delirantemente crêem serem mestres, no mínimo, não possibilitarão a seus pacientes chegarem ao fim de suas análises. O Saber do mestre inibe o Saber do Sujeito do Inconsciente.
Em determinado momento de seu ensino Lacan se questiona sobre o que deve saber, em uma análise, o analista. E a resposta que se dá é que o psicanalista deve saber ignorar o que sabe. É somente na ignorância garantida em si mesmo que o analista permite entrar em questão o Sujeito do Inconsciente, isto é, os saberes que estão do lado daquele que vai a procura de sua análise.
Freud também já havia recomendado que cada paciente fosse analisado como se fosse o primeiro de um analista. Isto não significa outra coisa senão que o saber elaborado em uma determinada análise, diz respeito somente ao particular do sujeito em questão. Este não saber, que se dá na função do analista é o que propicia, o que causa o movimento, no analisante de dar conta de seu saber, saber este que dirá algo da verdade de um Sujeito, na singularidade, nunca por completa.
Semi-verdade que vai ser dita a partir do amor endereçado a quem supostamente tem o Saber, mas que só vai ser encarada com tal, isto é, verdade, mas não toda, na medida em que se confrontar com a queda deste ideal suposto.
O analista configura-se para o paciente como aquele que sabe, é um Outro para qual o sujeito transmite seu saber. “ Um sujeito a quem se supõe um saber sobre o que seria sua verdade” (Lima, 2001, p. 4). E se supõe que o outro tem isso que é da verdade do Sujeito que vai a análise, não é por outra via senão a do amor de transferência.
É pela ignorância do analista, que o paciente vai a busca do que se configura como sua cena fantasmática, sua fantasia fundamental, causadora do Sujeito e das vicissitudes de sua existência. Esta fantasia adquiriu status de verdade, de verdade constitutiva. E este saber sobre esta cena fundamental é o que, de fato, importa no percurso analítico.
Neste percurso, a queda inicial do Sujeito Suposto Saber cede lugar ao amor pelo inconsciente. Sujeito Suposto Inconsciente?
A fantasia, base do Sujeito do Inconsciente e que confere ao Outro a suposição de saber, não será digna de ser tratada como um saber somente para que mais tarde possa perder este status? Segundo Lacan, sujeito suposto é um termo redundante, pleonástico, já que sujeito nunca pode ser senão suposto. Assim, o Sujeito do Inconsciente também é um sujeito suposto. E se continuarmos em dedução, não poderíamos pensar que o saber que se espera ouvir do Sujeito do Inconsciente sobre suas fantasias originárias também é um Suposto Saber? Sujeito Suposto Saber não seria, então, o paciente?

terça-feira, 27 de março de 2007

psicanálise X tcc

“A vida em preto e branco” é um filme que conta a história de um rapaz que assistia um seriado de tv chamado Pleasantville. O rapaz era um exímio conhecedor de todo o seriado, sabia de cor todas as falas e todos os comportamentos dos personagens. Filho de pais separados e descontente com o comportamento da mãe, tem uma irmã que vive liberadamente os prazeres sexuais na juventude.
Brigando pelo uso da televisão, ao apertar um controle remoto, os dois irmãos entram na tv e começam a viver como personagens do seriado.
A cidade de Pleasantville era composta pela rua principal e pela rua secundária. O fim da rua principal era o início da mesma. Não existia o fora em Pleasantville, e todos os comportamentos dos personagens, prescritos como destino por um roteiro, eram rotineiros, habituais e sem novidade alguma. Ao alcançar 6 horas no relógio da sala, o marido abre a porta e diz: “querida, cheguei”, a mulher, com um belo sorriso, coloca uma bandeja de bolinhos sobre a mesa.
O rapaz conhecia o seriado, de modo que sabia como comportar-se em cada cena, já a moça, irritada por estar ali, não via nenhum objetivo para atuar segundo o roteiro original da história. Assim, com suas atitudes não padronizadas, a garota começa a causar certa desordem e em conseqüência caos na cidade de Pleasantville.
Os outros personagens do seriado, diante do inusitado não sabem como comportar-se. Como o roteiro vai mudando eles não sabem mais como devem agir. Os fatos não correspondem mais ao roteiro prescrito. Os personagens começam a demonstrar angústia, tristeza, confusão, comportamentos repetitivos... Porém, em meio a esta desordem instalada, as pessoas começam a descobrir desejos e prazeres, e Pleasantville, na cidade em que só existiam três cores: o preto, o branco e o cinza, outras cores começam a aparecer.

Ante ao caos instalado na cidade pelos comportamentos não escritos no roteiro original do seriado, podemos nos questionar sobre o porquê dos habitantes não conseguirem reagir sem maiores transtornos.
Jacques-Alan Miller nos ajuda a resolver o mistério, quando diz:
“Se produce um trauma cuando um hecho entra em oposición com um dicho, com um dicho esencial de la vida del paciente, cuando hay uma contradicción entre el hecho y lo dicho” (Efectos terapêutico rápidos).
Não poderíamos encontrar um melhor modelo para compreender a relação com o dito/roteiro e o fato/o que acontece na cena. Os habitantes de Pleasantville diante da contradição entre o roteiro e o que de diferente se estabelecia não puderam dar nenhuma resposta senão outra digna de uma reação traumática. O roteiro – dito essencial da vida destes personagens – fora ignorado pelos fatos que se sucederam. Mas os personagens não puderam ignorar nem o roteiro e nem os novos fatos: criou-se o caos.
E assim se produz sintoma, quando um dito essencial da vida sujeito entra em oposição com um fato. O sujeito não pode ignorar o dito que é estabelecido como a verdade de sua vida, mas também não pode ignorar o fato. Assim, para situar-se entre o dito e o fato estabelece-se numa posição sintomática.
Jorge Forbes com outras palavras, também nos ajuda a entender a questão. Afirma, em uma apresentação no “Café filosófico” – programa apresentado pela TV Cultura, que só existe adversidade para aquele que acha que existe uma versão principal. “Se eu tiver uma multiplicidade de versões, eu não tenho adversidade”, diz. Isto é, se multiplicar os ditos, se poderá ter menos contradição com os fatos.
Ante ao mal-estar instituído pelo caos, ou pela adversidade, múltiplas formas de lidar com este vão sendo desenvolvidas pelo mundo afora. O sujeito que sofre precisa ser tratado! E os tratamentos sempre foram das espécies mais diversificadas em toda a história da humanidade.
Nos últimos tempos, temos vivido uma época em que se crê poder controlar o mal-estar e ainda, muitas vezes, o que lhe causa.
O filme de que aqui se fala inicia com uma aula na qual a professora expõe as estatísticas da fome e de alguns perigos a que a humanidade está submetida. Assim, cria-se primeiro o medo, a cultura do medo e as estatísticas do medo. As estatísticas são a base para o controle. Diante das estatísticas do medo queremos estar fora delas e então pedimos pelo controle. Pedimos por uma vida controlada e agradável.
A Terapia Cognitiva Comportamental é uma forma moderna de se tratar o sofrimento psíquico. Através de técnicas de adaptação, aprendizagem e controle, promete aos pacientes a supressão dos sintomas que os fazem sofrer. É, sobretudo, uma terapia em que o saber sobre o que deve se fazer com o sintoma e a forma de fazê-lo vem do outro, mostrando assim, que está longe de querer emancipar o sujeito. Não há espaço para as diferenças e para outros desejos. Há um protocolo inicial que diz o que é bem-estar e saúde.
O problema da TCC é que ao calar o sujeito, as diferenças e controlarem os sintomas ou que o faz doer no sujeito ante o Real, é que torna o sujeito ainda mais frágil e despreparado ante o imprevisível e caótico que sempre se impõe. A questão é que nosso mundo não é Pleasantville antes da invasão dos desejantes. Em nosso mundo, mesmo que passássemos todos por uma boa terapia cognitiva comportamental, mesmo que todos fossemos controlados, em nosso mundo, o Real (como as tempestades, os acidentes) não deixará de existir. O Real se imporá sempre, e sem lei, sem ordem, nem previsão. E o que nos resta é possibilitar aos sujeitos que alarguem suas versões sobre o que podem suportar no mundo. Que alarguem as fronteiras de suas idealizações e que possam então saber-fazer com o que lhes acontece.
Este é, sobretudo, o objetivo de uma análise. Diz Jorge Forbes: “O objetivo de uma análise não é reforçar o ego. Formar uma pessoa cheia de certezas do que ela quer, do que ela faz, um bom administrador da vida. O objetivo de uma análise é formar um homem pronto a todas as circunstâncias – não preconizando o cinismo. Não quer dizer que não tem nenhum tipo de eixo, de amarração, não é o homem ilimitado, não é o homem pode-tudo, não é o homem ‘liberou geral’. É o homem que destituído do peso das identificações verticais (que são, na maior parte, peso, nostalgia, constrangimento, mortificação)” pode ter um novo modo de enfrentar as novas versões apresentadas na vida, não mais como adversidades.
Dizer que o mundo ficaria chato sem as diferenças, com as pessoas iguais, ou robotizadas, com o controle exacerbado é não dar o devido valor ao fato. Não é isso! O mundo, ou a nossa vida, ficaria ainda mais frágil e em risco.
No final do filme, dois personagens, sentados num banco dizem sorrindo: “eu não sei o que vai acontecer”. Romanticamente ouvimos repetidamente que a vida seria um tédio se tudo fosse sempre igual e previsível, que o bom da vida é não saber o que nos espera. Mas o bom da vida, não é simplesmente que não sabemos o que vai acontecer, o bom da vida mesmo, é quando podemos saber-fazer algo diante do imprevisível.
O que vai acontecer, eu não sei. E não me basta que um sintoma tenha sido curado para que eu possa não criar outro diante de novos confrontamentos com o Real que necessariamente me acontecerão. Para além do sintoma, há um sujeito que precisa rever sua posição ante as adversidades, os traumas, o caos, o Real.

Amor pela psicanálise


Quando pensamos em uma escola, em geral, nos vem à cabeça um lugar onde passamos para aprender determinadas coisas que farão alguma diferença em nossa vida. Esta escola nos forma para o depois. Ela é um lugar de passagem, lugar que pressupõe uma verdade, na qual o que irá se modificar é a pessoa que a ela se submeter.
Mas, quando se trata de psicanálise, não poderíamos pensar em uma escola deste molde. Uma escola que forma para depois. Uma escola em que se pressupõe uma verdade, na qual os sujeitos podem se formar. Se numa escola psicanalítica, as pessoas estão em constante aprendizagem, não é para depois. Espera-se, nesta, que os sujeitos não se formem, ou não se sintam formados, a ponto de abandoná-la, como fazemos com as outras escolas. A formação em uma escola psicanalítica não tem fim, nunca chega à hora de se diplomar. Quem entra numa escola como esta, entra com o objetivo de não sair.
Mas por quê? Primeiro, porque já sabemos que a formação do analista nunca chega ao final. A formação é infinita. E segundo, por que a verdade, geralmente digno objeto de uma escola, não é, ou não pode ser, total numa escola psicanalítica. Esta escola nunca sabe o todo, nunca tem o saber absoluto. Mas apesar de saber que nunca poderá oferecer uma verdade totalizante, não cessa de se pôr à busca de mais saber. Porque quem, ou melhor, o que está em formação nesta escola, não são apenas seus membros ou quem ao redor dela se situa, mas sim a própria psicanálise. Se existe um aluno nesta escola que nunca se forma é a própria psicanálise. E é ela para a qual todas as atenções se dirigem, é para a formação dela que todos trabalham. É para que ela possa aprender a ser um digno instrumento para olhar e tratar o mal-estar da época presente é que se trabalha sem cessar.
É nesta escola de psicanálise que acredito! É nesta escola de psicanálise em que, como analista, quero dedicar minha formação continuada e permanente, e fazer do meu trabalho e dedicação, uma fonte de saber para a psicanálise. Para que a psicanálise possa ser sempre viva, sempre a altura de seu tempo.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Prepotência, vaidade, exibicionismo

Exibicionismo é uma vaidade ao avesso!
O que me faz lembrar a palavra exibicionismo?
Lembro de uma cantiga infantil: Exibida, colorida, come casca de ferida, come bem, come mal, come casca de animal.
Tu és o que comes! A boca abocanha o si mesmo todo o tempo. A exibida come a casca e é a própria casca. E o que está sob a casca é a ferida. A exibida come casca porque é a casca e mostra a ferida. Mostra a falha. O ferimento. Come a casca e mostra do que é feita. Pura ferida.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Os não-tolos erram, ou o que os psicanalistas precisam aprender com os portugueses

Todos estavam prestes a apedrejar Maria Madalena, quando Jesus falou:
- "Quem nunca errou que jogue a primeira pedra!"
Um português juntou rapidamente do chão o maior pedregulho que achou e jogou, acertando Maria Madalena.
Jesus chegou até ele e perguntou:
- "Você nunca errou?"
O português respondeu:
- "Dessa distância eu nunca errei senhor!"

Um português liga para a delegacia e pergunta?
--O delegado está aí? Gostaria de falar com ele.
--Pode falar, é o próprio!
--Oi Próprio, tudo bem, chama o delegado pra mim, por favor.

Passando em frente a um chaveiro, um português vê a placa "Trocam-se segredos". Manoel entra na lojinha, olha para os dois lados e fala no ouvido do homem:- Eu sou gay, e você?

Dois amigos portugueses se encontram.
- Ó Manuel, há quanto tempo! Como anda o nosso amigo Joaquim?
- Você não sabe que desgraça aconteceu? O Joaquim foi pego roubando ovos, foi julgado e condenado.
- E daí?
- Ele foi enforcado!
- Meu Deus, pelos ovos?!
- Não pelo pescoço!

Um português estava parado na esquina quando um cara apressado perguntou pra ele:
- Você viu alguém dobrando a esquina? O português respondeu:
- Não senhor, quando cheguei aqui já estava dobrada!

São famosas e inúmeras as piadas que se faz a respeito da compreensão dos portugueses em relação aos ditos. Bem, ouso dizer que o que nos faz rir diante destas histórias não é digno de ser chamado de piada, mas sim de chiste.
Um chiste é uma formação da linguagem que nos provoca certo mal-estar e riso por nos transmitir uma verdade.
Mas qual seria a verdade para nós transmitida pela dita “piada de português”? Que verdade seria esta que nos causaria algo entre o riso e o mal-estar?
É a própria verdade de que não há relação imediata entre o significante e o significado.
Bem, vamos ver, do que se trata estas piadas: “Maria diz algo a Joaquim e Joaquim tem determinado comportamento por compreender de forma equivocada o que Maria havia dito. Equivocada? Será possível dizer que Joaquim entendeu errado? Ouso dizer que o que nos faz rir não é a possível tolice do Joaquim, pelo contrário, é o mal-estar ante ao encontro com o Real de que não há relação sexual. De que o significante não está colado ao significado, que, ao contrário, eles estão separados por uma barra. Do Real só podemos nos aproximar pela palavra. E elas não dão conta de nomeá-lo. Sempre se pode dizer mais ou se dizer menos e mesmo assim, o Real não pode ser apreendido.
Os não tolos erram. E se considerarmos o Joaquim um tolo, seremos nós os equivocados. Se nos considerarmos não tolos aos rirmos da tolice de Joaquim, estaremos incontestavelmente caídos no erro.
“Todos sabemos por que inventamos um truque para encher o furo (trou) no real ... Ali onde não há relação sexual, há traumatisme. Cada um inventa o que pode”. (Lacan, sem. XXI)
Nós inventamos chamar piada ao que os portugueses (pelo menos os da piada) nos mostram explicitamente: que não há relação estrita de significação, que não há relação sexual.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

Sem ti
Não sinto nada
Ai dos meus sentidos
Sem ti

Minha boca
Sem ti
Nenhum gosto
Senti

Meus olhos
Senti
Não vêem nada
Sem ti

Meus abraços
Sem ti
Não valem nada
Senti

O mar não é
Sem ti
Nem o sol
Senti

Sem ti
Não sinto nada
Ai dos meus sentidos
Sem ti

sexta-feira, 16 de abril de 2004

Eva ou Maria?

Em nossa cultura ocidental, dois grandes mitos do feminino formam o imaginário popular a respeito do ser mulher: Eva e Maria.
Eva, a primeira mulher, a mulher que figura o pecado. O pecado original. Aquela que perturba o homem, que o lança no mal caminho. A imagem do sexo. A imagem do proibido. Do fruto proibido. Aquela que nasceu do homem (nasceu da costela de Adão) e por falta de gratidão e bondade, tira-o do paraíso celeste, lançando-o ao inferno terrestre. Lançando ao inferno do desejo, desejo pelo proibido. Ao inferno do desejo e de sua insatisfação. É Eva a imagem da mulher que tira o homem de sua razão, que o desconcerta. É a imagem da paixão que cega, que enlouquece, que instiga ao crime.
Mas se Eva peca pela desobediência e pela ingratidão, Maria, ao contrário, é imagem da pureza, da candura, da resignação, da subserviência.
Maria é imagem da mãe. Da mãe assexuada, virgem, que tem em seu ventre um filho, sem ter sofrido o pecado do sexo. Maria, a imagem da santidade, da bondade, do altruísmo. Maria não tem desejo, nem inspira o desejo. Coloca seu único filho no mundo para salvar a humanidade do mal cometido pela primeira e pecaminosa mulher.
Mas o fato é que nos mulheres não somos mitos, não temos, sozinhas, o poder para destruir ou salvar toda uma humanidade. Não somos A mulher, somos apenas mulheres. Nem Eva, nem Maria, apenas mulheres.

Os sentimentos da modernidade

Quem não se lembra da época em que apenas o olhar paterno bastava para que o filho soubesse o que deveria ou não deveria ser feito? Quem não se lembra da época em que a profissão ou até mesmo o casamento era escolhido pelos progenitores? Quem não se lembra da época em que o que era certo e errado estava bastante claro para todos e, inclusive, era consenso. Porém, esta é, sem dúvidas, uma época em decadência. A cada dia percebemos a diluição deste poder, e em conseqüência, o que é certo e errado passa a ser colocado em questão.
Podemos perceber concretamente que as figuras representativas do poder estão sendo diluídas: as relações familiares se modificam, sendo que a figura central deixa de ser o pai e passa a ser a relação familiar em si mesmo; os professores perdem o lugar da mestria, isto é, o lugar de quem sabe, e passa a ser um agente proporcionador do encontro do aluno com um aprendizado específico; o próprio Direito está diluindo seu poder na medida em que propicia sua privatização, a lei deixa de ser regida por uma única instância, o Estado, representada pela emblemática figura de um juiz, para ser aplicada por instâncias outras, como institutos de mediação e arbitragem, nos quais não há uma autoridade decisória, mas há uma condução para a resolução de um determinado conflito. É a época da comunicação e da discussão, e é através destas que o poder se dilui.
E a medida em que o poder se dilui, as certezas a respeito do ser e a respeito da vida entram em decadência. Antes, havia alguém (pai, professor, juiz, etc.) que supostamente sabia o que era certo e errado, e através do seu poder se constituía a idéia de verdade. Hoje não conferimos mais ao outro a verdade sobre nossas vidas, temos que decidi-la sozinhos. E descobrir nossa verdade neste mundo de muitas possibilidades, faz-nos, muitas vezes, sentir angústia e até solidão.
“Eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte”, diz Saint-Preux, o protagonista da novela A nova Heloísa, de Rousseau.
Este é um sentimento próprio de nossa modernidade, época que se caracteriza por propiciar ao homem uma vasta gama de possibilidades. Vivemos um momento no qual tudo é possível, nada é absurdo, tudo deve ser considerado.
O homem moderno das múltiplas possibilidades sofre por ter que se confrontar com o seu desejo e por se ver responsavelmente implicado nas suas escolhas. Sofre com o desamparo frente a contingência da vida moderna, já que perdeu, com a queda da moralidade ortodoxa, uma certa referência do que deve ser ou do que deve fazer, do certo e errado, e passa a ser o responsável pela formulação destas questões, restando, enfim, a incerteza, a solidão e por conseqüência, a famosa doença do século que se foi: a depressão.
Isto tudo caracteriza uma forte mudança na história da condição humana. e resta-nos perguntarmos: o que é melhor, sofrer com a angústia de ter que encontrar nosso próprio desejo, ou sofrer com a angústia de ter nosso próprio desejo esmagado pelo desejo de um outro?

domingo, 4 de abril de 2004

Casar ou não casar: eis a questão!

Até algum tempo atrás, a questão exposta no título deste artigo não era pertinente, visto que havia a crença de que todos nós, seres humanos, nascemos e crescemos para nos unirmos a alguém e vivermos uma relação consolidada pelos laços do matrimônio. E ainda mais: esta união havia de ser respaldada pelas duas maiores instâncias da Lei em nossa cultura: a Igreja e o Estado.
Então, com a certeza inabalável de estar dando um passo a frente em seu desenvolvimento pessoal, de estar cumprindo “as ordens da natureza humana”, homens e mulheres casavam-se no religioso e no civil.
Porém, nossa modernidade é marcada, sobretudo, por um grande abalo nas certezas, nas convicções. Vivemos em um momento da história em que tudo se questiona. Também vivemos a era das sensações, dos pequenos prazeres, na qual os sentimento são efêmeros, evanescentes.
Nesta era dos questionamentos e da efemeridade, repensa-se as relações interpessoais, dentre elas, o casamento.
O casamento como vínculo contratual deixou de ser obrigatoriedade, mesmo que moral, e cada vez mais o número de vínculos destes modos de vida tem-se dispensado e até mesmo desfeito.
Mas porque nosso comportamento em relação a esta temática tem se transformado tão duramente? Em geral, a crítica que se faz a instituição casamento refere-se, sobretudo, a subjugação a que, na maior parte das vezes, se impõe os envolvidos em tal relação. No casamento é como se desaparecessem os sujeitos para nascer um terceiro elemento: a relação.
E como vivemos numa época na qual se considera largamente a subjetividade, a individualidade e os interesses de cada um, cada vez menos cedemos aos interesses dos outros em detrimento dos nossos, e já nos diziam os antigos: casamento é doação... Logo, dizemos cada vez menos sim ao casamento. Só que ainda não sabemos direito o que fazer com estas incertezas a respeito desta temática. Devemos entender que este novo tipo de comportamento é fruto de nosso momento histórico, é próprio da modernidade. Como diz Jurandir Freire Costa, hoje em dia “queremos um amor imortal, mas com data de validade marcada”, ainda não abandamos nosso ideal de felicidade que está ligado a um relacionamento amoroso, mas ao mesmo tempo, questionamo-nos sobre ele. Assim, a pergunta sobre casar-se ou casar-se assola-nos constantemente a cabeça.
Devemos nos perguntar: é ruim isto que está nos acontecendo? É ruim estar privilegiando tanto o sujeito em detrimento destas relações historicamente criticadas? Na verdade não. Pelo contrário. Não há nada de ruim quando conseguimos nos relacionar com alguém sem desconsiderarmos nossos próprios desejos e interesses, bem como os desejos e interesses daquele com quem nos relacionamos.
Porém, temos que tomar o cuidado para não assumirmos uma moral inversa, isto é, não dizermos não aos vínculos só pelas críticas que se fazem a eles. Devemos, sim, sempre repensarmos a forma de vida que levamos, sobretudo para encontrarmos nosso próprio desejo.

quinta-feira, 18 de março de 2004

O nascimento do amor

Barthes em seu Fragmentos do discurso amoroso, descreve três etapas a vida amorosa. Neste texto falarei sobre as duas primeiras: “a primeira é instantânea, a captura (sou raptado por uma imagem); em seguida vem uma série de encontros (encontros pessoais, telefonemas, cartas, e pequenas viagens), no decorrer dos quais “exploro”, extasiado, a perfeição do amado, ou melhor, a adequação inesperada de um objeto ao meu desejo: é a doçura do começo, o tempo idílico.”
Este doce tempo do começo é o tempo da paixão ardente, é o tempo em que a razão pouco importa. Tudo parece mais bonito aos nossos olhos quando encontramos o amor. Nunca a luz do sol, a chuva, as estrelas e o canto dos pássaros, parecem tão atraentes.
Só o que não é perfeito neste momento de paixão é não poder estarmos juntos a todo instante. A triste separação que a realidade nos obriga, às vezes dói como se estivéssemos perdendo uma parte de nosso próprio corpo. O trabalho, a família, os amigos, nada, nem ninguém nos importa. Tudo parece sem sentido quando não estamos na presença do amado. Sem sua presença nada tem graça, nem razão de ser. É o momento mágico que bem parece com a magia da simbiose entre a mãe e seu bebê.
Quase temos vontade de entrar no corpo do outro, e dois fazerem apenas Um, como no princípio eram mãe e filho. Um para quem a realidade pouco importa. Um para que não haja a tristeza da separação. E nas mãos entrelaçadas andando pelas calçadas, nos abraços que não se findam, no toque dos lábios, e no ato sexual, somos por alguns instantes este Um. Somos um a extensão do outro.
A história e os amigos gritam nos dizendo que esta paixão, êxtase de paixão, tende a não seguir adiante; tende a caminhar para o fim, para a triste desilusão do desencontro. Porém, surdos e cegos para tudo e para todos recusamo-nos a ouvi-los. Pouco importa a história dos outros, as desilusões dos outros. Resta-nos a certeza de que nossa história será outra, terá final de novela, sempre feliz. Resta-nos a certeza de que o amor nasceu em nós e ali permanecerá. Seremos o primeiro casal a provar que a realidade da vida e a realidade do desejo não irá nos a abalar.
Resta-nos, por fim, a prova do tempo... e como diz o poeta: que seja eterno enquanto dure.