“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!”[1]
Sabemos que o neurótico é aquele que precisa inventar o pai para dar conta de um gozo no corpo, para dar conta deste gozo que aparece como excessivo, imenso. Ante o irrepresentável que emudece, o neurótico é aquele que inventa um Nome. Pede ao pai um Nome. Pede ao pai que dê sentido, significação, àquilo que aparece como fora do campo das significações.
O que justamente acontece com o neurótico é que ele pode acreditar neste Nome dado que supostamente esconde isto que é sem controle, o real. E ele realmente acredita. Passa a usar esta nomeação como um escudo ante o incompreensível, ante a contingência. A esta nomeação, em psicanálise, nomeamos, entre outros nomes, como Nome-do-Pai. Este é o grande responsável por possibilitar ao sujeito o encontro com o outro, isto é, leva-o à possibilidade do laço social.
E o que é um pai? Em psicanálise, entendemos que um pai é aquele que separa a criança da mãe, de uma boa maneira, “quer ele queira ou não”. Assim, a palavra pai ocupa o lugar de função.[2] Lacan é aquele que “liberta o pai freudiano da situação concreta, familiar, em que aparentemente estava localizado. Invertem-se os dados: em vez de ‘O pai é a origem’, teremos ‘O que for, para um sujeito, a origem será o pai’”[3].
Nas palavras de Esthela Solano-Suarez, “o Nome-do-Pai, na psicanálise, é um instrumento para resolver o gozo pelo sentido”[4].
Leonardo Gorostiza diz que a função paterna é dar ancoragem ao sujeito. Uma ancoragem de duas faces: de um lado identificatória e de outro como reguladora dos modos de satisfação. “Sem esses pontos de apoio e regulação, fonte de produção de sentido, o sujeito cai – literalmente – à deriva.”[5]
No texto “A outilidade do pai”[6], Sérgio de Campos nos lembra que um pai serve como bússola, como guia moral para um filho. Ante uma criança, ele oferece segurança, e serve como fonte de identificação. É “uma muralha alta e espessa, (que) interpõem-se entre a criança e as necessidades vitais, as responsabilidades da vida, as dores do mundo e os riscos de morte. O pai, portanto, serve como uma muralha em cuja sombra o filho floresce”.
Mas se o neurótico usa este Nome-do-Pai para se identificar e também para tornar possível o seu encontro com a satisfação; mas se o neurótico acredita muito neste Nome ao ponto de fazer grande esforço para sustentá-lo como um Nome potente; mas se o neurótico usa este Nome para responder a si o que quer o Outro e poder seguindo a vida nesta crença, sabemos que hora ou outra, este Nome vai padecer, vai falhar, não vai responder com garantias àquilo que não tem medida, nem nunca terá, que não tem governo, nem nunca terá, mas que pelo menos podemos dar um nome: Real.
Quanto à muralha, “com o crescimento da criança, reduz sua altura e sua espessura até o momento em que se pode perceber, por intermédio de suas falhas, frestas e rachaduras, que não é, nem foi, tão resistente e segura quanto se imaginou”[7].
A angústia surge então como uma das possibilidades de resposta ante ao fracasso deste Nome. Deste nome que vez ou outra se torna muito pequenino e impotente. O sintoma também é prova da falha do Nome. O sintoma também pode ser a prova do esforço do neurótico para dar consistência ao Outro. E se o Nome-do-Pai está em decadência na cultura é por pura repetição do que acontece no nível do sujeito, com o crescimento da criança. Talvez tenhamos crescido no nível da cultura, ao ponto de percebermos a falência do pai.
Sabemos que um sujeito até pode se virar bem com seu sintoma, vez outra sofrendo, com angústia, quem sabe... Pode ser que um sujeito não queira nunca abrir mão de seu sintoma, e de seu esforço em dar consistência ao Outro. Felizmente também sabemos que para àqueles que sofrem de um mal a mais (Plus de mal), e que por contingência da vida puderam encontrar um analista, há o que se fazer.
E qual é a operação efetuada em uma análise no que diz respeito a esta nomeação paterna? Seria função de uma análise restaurar a imagem do velho pai? Seria função de uma análise fazer com que o sujeito desconsidere o pai?
Lacan, no Seminário 23[8], traz a expressão l´homme pours-père. Em um jogo com a palavra pours-père encontra-se uma ambigüidade: o pai faz o homem prosperar, e o homem é a finalidade do pai. Somado a estas duas, outro sentido homofônico: pourrir en espérant, que significa “apodrecer esperando”. Assim, na mesma medida em que se pode prosperar a partir do pai, também é possível apodrecer esperando que este Nome continue dando sentido, continue sendo equivalente ao demandado. Que o pai tenha sido útil ao ponto de interpor-se entre a criança e o desejo da mãe; útil em preencher um pouco o buraco sofrido pela extração de um objeto, não permite que se possa esperar que seja potente para sempre, ao preço de se apodrecer esperando.
Sérgio de Campos com sua bela metáfora nos auxilia: “Reduzido a um semblante, o pai faz com que o filho passe a enxergar o mundo por cima de um frágil biombo de papel, sendo esse, via de regra, um momento de metamorfose vivido como luto, em que ele prescinde do muro (do pai) depois de ter se servido dele”[9]. Nem restaurar a imagem paterna, nem desconsiderá-la, mas fazer um nome próprio deste que lhe foi dado como herança. Formular uma pére-version, agora com letra minúscula, sem o peso do Ideal, e também precedida por artigo indefinido (uma) já que pode também ser outra.
[1] GALEANO, Eduardo. A função da arte 1. In: O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2000, p. 15.
[2] LAURENT. Éric. Um novo amor pelo pai. In: Opção Lacaniana, n. 46. São Paulo, 2007, p. 20-29.
[3] VIEIRA, Marcus André. Retrato falado de um totem sem tabu (ou a hipermodernidade sertaneja). In: Latusa, n. 11. Rio de Janeiro, 2006, p. 13.
[4] SOLANO-SUAREZ, Esthela. Gozo. In: Scilicet dos Nomes do Pai. 2006, p. 67.
[5] GOROSTIZA. Leonardo. Autoridade. In: Scilicet dos Nomes do Pai. 2006, p. 25
[6] CAMPOS, Sérgio de. A outilidade do pai. In: Curinga, n. 23, Nov de 2006. EBP-MG, p.74.
[7] Idem.
[8] Conforme referência de Sérgio de Campos. Op. cit.
[9] Idem.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
sábado, 30 de junho de 2007
verdade, fantasia
Para que serve a fantasia? Para que serve a imaginação? Para que servem estes artefatos que nunca dão conta da verdade?
Eu não sou o que eu pensava. O outro não é o que eu pensava. E o que ele quer de mim? Só posso imaginar, fantasiar, interpretar e assim, me enganar. E esta fantasia se veste com a roupa da verdade. Roupa tão justa, tão colada, número perfeito, corte perfeito.
Perfeito? Até o dia em que o Outro nos surpreende com a não aceitação do objeto que fabricamos com tanto esforço, com tanto suor e com a certeza de que é exatamente este objeto o que o Outro queria de mim. O Outro o recusa! Mas não era o que ele queria? Então, o quer o Outro de mim? Eu não sabia o que ele queria? Eu imaginava, fantasiava e me enganava. Pura ilusão!
E por que nos enganamos? Por que criamos historinhas explicativas a respeito de nossa vida, a respeito do outro e a respeito da natureza? Por que ficamos com a forte impressão de que estas historinhas contadas são A verdade? Por que temos que dar sentido às coisas?
Aprendemos que quem vive no esforço de dar sentido às coisas é o neurótico. Então seria a ciência uma neurótica?
Os neuróticos estão a todo tempo remetendo seus acontecimentos a uma explicação qualquer... científica, religiosa, psicanalítica... Estão sempre articulando significantes para dar conta da verdade do que lhes acontece.
Mas para que se queixar disto? Aliás, não é da falta disto do que nos queixamos quando pensamos os novos sintomas? Era baseada nestas historinhas possíveis contadas pela pessoa submetida à análise que a psicanálise estabelecia sua técnica. E agora, diante dos que não conseguem articular alguma causalidade no que diz respeito ao que lhe acontece, temos que reinventar a psicanálise.
Mas não é dos novos sintomas que se trata este trabalho, e sim dos velhos. Das velhas formas de articular a própria existência a alguma fantasia originária.
Podemos perceber como a necessidade de dar sentido ao que nos acontece acompanha, talvez cada vez menos, a nossa existência. É famoso o questionamento infantil a respeito de tudo que podem perceber a sua volta. É vulgarmente conhecida a existência de uma fase infantil que se chama a fase dos por quês. As crianças querem saber os por quês de tudo o que está a sua volta. Querem saber sobre a origem da vida, sobre a diferença dos sexos, e também sobre outras coisas aparentemente menos significativas.
Assim, diante de nossa ignorância criamos explicações fantasiosas que acabam sendo estabelecidas como as verdades de nossa existência.
Mas a pergunta ainda persiste: por que não nos contentamos com o fato sem querermos as explicações sobre sua origem? Há quem diga que para dominar a natureza, o homem precisou conhecê-la. Buscando a origem, se pode prever os fatos e dominá-los.
E o que pode dizer a psicanálise a esse respeito? Como dito anteriormente, a técnica psicanalítica, na sua origem, se baseia, sobretudo, na articulação causal que o paciente pode fazer no que diz respeito a sua queixa.
Em Freud podemos nos remeter a idéia de que essas histórias contadas pelos pacientes a respeito de seu sintoma e de sua vida, têm ligação com o fato de que diante da falta estabelecida pela castração, precisam criar algum artifício que os levem a crer na completude originária, bem como na possibilidade de readquiri-la.
Ainda, freudianamente, podemos citar a passagem do Eu Ideal para o Ideal de Eu como causa das invenções do homem frente a sua própria existência. Com o Eu Ideal temos a noção de completude, de que se é o ideal, de que se é todo e completo. É na mítica fusão inicial com a mãe que se estabelece a crença neste momento de completude. Mãe e filho num único corpo formando um todo. Ainda podemos dizer que diante da primeira insatisfação, o bebê alucina o peito da mãe. Nega aí a falta e cria uma ilusão. Possivelmente a primeira dentre muitas ilusões que vamos inventar na vida.
Constatamos assim, a idéia de que há, na psicanálise freudiana, o momento da completude. O todo existe! Mesmo que seja perdido.
Porém, a castração se impõe. A realidade se impõe. E diante desta realidade, e acreditando na idéia de que em algum momento éramos Todo e Ideal, criamos uma história cuja qual se crê que poderá nos restituir como completo no desejo do outro. Criamos um Ideal de Eu, aquilo que segundo se acredita, se alcançado, nos levará a ser novamente perfeitos.
Já em Lacan, não mais a realidade, é o Real o que se impõe. O Real contingente, insuportável, sinistro, não pode ser encarado pelos humanos a olhos nus, assim, vestimos os óculos da fantasia. O Imaginário e o Simbólico nos protegem dele.
O Imaginário e o Simbólico disfarçam o Real e assim, defendem o sujeito deste insuportável que é o sem sentido da existência.
Fantasia é o nome que damos a estas histórias imaginadas a fim de apreender o Real. A fantasia tem agregada em si o Simbólico, o Imaginário e também o Real.
Estas historietas permitem algum contato com o real, elas servem ao mesmo tempo, e em um mesmo movimento, para escondê-lo. (...) Elas vêm tapar o buraco onde o real ameaça penetrar. A primeira e mais fundamental maneira de fazê-lo é dando sentido. A fantasia é assim um conto imaginário que tem uma vertente simbólica/significante e também uma vertente real (VIEIRA, p. 10).
Lacan, no avesso da psicanálise diz que “...nós, seres de fragilidade, temos necessidade de sentido” (Lacan, p. 13, 1992). E este sentido não pode ser dado senão como construído numa fantasia. A fantasia, diz Lacan, é um real que esconde a verdade.
Mas o que é a verdade? Ainda seguindo o Lacan, dizemos que a verdade é algo que se situa entre nós e o Real. A verdade não é o Real.
Enquanto em Freud a relação analítica é fundada no amor à verdade, em Lacan, a ênfase está no “que escapa ao sentido, ao que ultrapassa tudo que é da ordem da verdade mas que manifesta algo de mais cru e duro (...). A verdade é impotente, ela faz ficar vagando em seus mortíferos labirintos” (CERVELATTI, p.1,).
Assim, numa análise, todas as histórias contadas, todas as associações e formações do inconsciente, surgem nesta dupla função: dizer sobre a verdade do sujeito e ao mesmo tempo velá-la. Mil histórias contadas e articuladas a mesma cena. Mil associações possíveis. O que fazer com tudo isto? Onde paira o Real no meio destas invenções fantasmáticas? No esgotamento desta arte inesgotável de dar outros possíveis sentidos, surge a pergunta: o que resta para além destes possíveis sentidos a serem dados? “Producimos más sentido del necesario. Producimos sentido em exceso al punto de ser asfixiados por él.” (MALENGREAU, p. 3, 2006).
Não fique doido por uma verdade, diz Lacan. O inconsciente, “a máquina de dar sentido”, inventa, como a maior das defesas, a própria verdade. Como instrumento do trabalho do psicanalista, a verdade é traiçoeira. Ela engana, faz pensar que deve sim existir uma verdade última, ou um sentido último.
“O percurso da análise deve então seguir a retomada destas histórias e o progressivo esvaziamento de seu valor pulsional até que se chegue a uma formulação mínima, onde não há mais dentro e fora, nem sujeito e agente (...) As histórias continuarão lá, mas o sujeito, menos escravo de seus dramas, pode então adquirir uma maior leveza (e não uma maior liberdade) com relação à cadeia de suas determinações. É uma maneira de entendermos a conhecida afirmação freudiana segundo a qual a análise transforma a tragédia do neurótico em drama banal” (VIEIRA, p. 10).
E assim, que se possa concluir que “...no es necesario mucho sentido para vivir. Um poco de saber-hacer com aquello que no tiene sentido alcanza.” (FINK, p.3, 2006)
Referências Bibliográficas
CERVELATTI, Carmem Silva. Não fique doido por uma verdade. (Site EBP)
FINK, Bruce. Fantasias y el fantasma fundamental: uma introducción. Virtualia – Revista Digital de la Escuela de la Orientacción Lacaniana. Jun/Jul-2006
MALENGREAU, Pierre. El acto, aún. Virtualia – Revista Digital de la Escuela de la Orientacción Lacaniana. Jan/Fev-2006.
MONTEIRO, Elisa. Sintoma, fantasia e pulsão. 1997. (Site EBP)
NUNES, Laureci. A descoberta freudiana da fantasia fundamental. In: Fênix.
LACAN, Jacques. O Seminário – livro 17: o avesso da psicanálise. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1992.
VIEIRA, Marcos André. Da realidade ao real – Jacques Lacan e a realidade psíquica. (Site EBP)
Eu não sou o que eu pensava. O outro não é o que eu pensava. E o que ele quer de mim? Só posso imaginar, fantasiar, interpretar e assim, me enganar. E esta fantasia se veste com a roupa da verdade. Roupa tão justa, tão colada, número perfeito, corte perfeito.
Perfeito? Até o dia em que o Outro nos surpreende com a não aceitação do objeto que fabricamos com tanto esforço, com tanto suor e com a certeza de que é exatamente este objeto o que o Outro queria de mim. O Outro o recusa! Mas não era o que ele queria? Então, o quer o Outro de mim? Eu não sabia o que ele queria? Eu imaginava, fantasiava e me enganava. Pura ilusão!
E por que nos enganamos? Por que criamos historinhas explicativas a respeito de nossa vida, a respeito do outro e a respeito da natureza? Por que ficamos com a forte impressão de que estas historinhas contadas são A verdade? Por que temos que dar sentido às coisas?
Aprendemos que quem vive no esforço de dar sentido às coisas é o neurótico. Então seria a ciência uma neurótica?
Os neuróticos estão a todo tempo remetendo seus acontecimentos a uma explicação qualquer... científica, religiosa, psicanalítica... Estão sempre articulando significantes para dar conta da verdade do que lhes acontece.
Mas para que se queixar disto? Aliás, não é da falta disto do que nos queixamos quando pensamos os novos sintomas? Era baseada nestas historinhas possíveis contadas pela pessoa submetida à análise que a psicanálise estabelecia sua técnica. E agora, diante dos que não conseguem articular alguma causalidade no que diz respeito ao que lhe acontece, temos que reinventar a psicanálise.
Mas não é dos novos sintomas que se trata este trabalho, e sim dos velhos. Das velhas formas de articular a própria existência a alguma fantasia originária.
Podemos perceber como a necessidade de dar sentido ao que nos acontece acompanha, talvez cada vez menos, a nossa existência. É famoso o questionamento infantil a respeito de tudo que podem perceber a sua volta. É vulgarmente conhecida a existência de uma fase infantil que se chama a fase dos por quês. As crianças querem saber os por quês de tudo o que está a sua volta. Querem saber sobre a origem da vida, sobre a diferença dos sexos, e também sobre outras coisas aparentemente menos significativas.
Assim, diante de nossa ignorância criamos explicações fantasiosas que acabam sendo estabelecidas como as verdades de nossa existência.
Mas a pergunta ainda persiste: por que não nos contentamos com o fato sem querermos as explicações sobre sua origem? Há quem diga que para dominar a natureza, o homem precisou conhecê-la. Buscando a origem, se pode prever os fatos e dominá-los.
E o que pode dizer a psicanálise a esse respeito? Como dito anteriormente, a técnica psicanalítica, na sua origem, se baseia, sobretudo, na articulação causal que o paciente pode fazer no que diz respeito a sua queixa.
Em Freud podemos nos remeter a idéia de que essas histórias contadas pelos pacientes a respeito de seu sintoma e de sua vida, têm ligação com o fato de que diante da falta estabelecida pela castração, precisam criar algum artifício que os levem a crer na completude originária, bem como na possibilidade de readquiri-la.
Ainda, freudianamente, podemos citar a passagem do Eu Ideal para o Ideal de Eu como causa das invenções do homem frente a sua própria existência. Com o Eu Ideal temos a noção de completude, de que se é o ideal, de que se é todo e completo. É na mítica fusão inicial com a mãe que se estabelece a crença neste momento de completude. Mãe e filho num único corpo formando um todo. Ainda podemos dizer que diante da primeira insatisfação, o bebê alucina o peito da mãe. Nega aí a falta e cria uma ilusão. Possivelmente a primeira dentre muitas ilusões que vamos inventar na vida.
Constatamos assim, a idéia de que há, na psicanálise freudiana, o momento da completude. O todo existe! Mesmo que seja perdido.
Porém, a castração se impõe. A realidade se impõe. E diante desta realidade, e acreditando na idéia de que em algum momento éramos Todo e Ideal, criamos uma história cuja qual se crê que poderá nos restituir como completo no desejo do outro. Criamos um Ideal de Eu, aquilo que segundo se acredita, se alcançado, nos levará a ser novamente perfeitos.
Já em Lacan, não mais a realidade, é o Real o que se impõe. O Real contingente, insuportável, sinistro, não pode ser encarado pelos humanos a olhos nus, assim, vestimos os óculos da fantasia. O Imaginário e o Simbólico nos protegem dele.
O Imaginário e o Simbólico disfarçam o Real e assim, defendem o sujeito deste insuportável que é o sem sentido da existência.
Fantasia é o nome que damos a estas histórias imaginadas a fim de apreender o Real. A fantasia tem agregada em si o Simbólico, o Imaginário e também o Real.
Estas historietas permitem algum contato com o real, elas servem ao mesmo tempo, e em um mesmo movimento, para escondê-lo. (...) Elas vêm tapar o buraco onde o real ameaça penetrar. A primeira e mais fundamental maneira de fazê-lo é dando sentido. A fantasia é assim um conto imaginário que tem uma vertente simbólica/significante e também uma vertente real (VIEIRA, p. 10).
Lacan, no avesso da psicanálise diz que “...nós, seres de fragilidade, temos necessidade de sentido” (Lacan, p. 13, 1992). E este sentido não pode ser dado senão como construído numa fantasia. A fantasia, diz Lacan, é um real que esconde a verdade.
Mas o que é a verdade? Ainda seguindo o Lacan, dizemos que a verdade é algo que se situa entre nós e o Real. A verdade não é o Real.
Enquanto em Freud a relação analítica é fundada no amor à verdade, em Lacan, a ênfase está no “que escapa ao sentido, ao que ultrapassa tudo que é da ordem da verdade mas que manifesta algo de mais cru e duro (...). A verdade é impotente, ela faz ficar vagando em seus mortíferos labirintos” (CERVELATTI, p.1,).
Assim, numa análise, todas as histórias contadas, todas as associações e formações do inconsciente, surgem nesta dupla função: dizer sobre a verdade do sujeito e ao mesmo tempo velá-la. Mil histórias contadas e articuladas a mesma cena. Mil associações possíveis. O que fazer com tudo isto? Onde paira o Real no meio destas invenções fantasmáticas? No esgotamento desta arte inesgotável de dar outros possíveis sentidos, surge a pergunta: o que resta para além destes possíveis sentidos a serem dados? “Producimos más sentido del necesario. Producimos sentido em exceso al punto de ser asfixiados por él.” (MALENGREAU, p. 3, 2006).
Não fique doido por uma verdade, diz Lacan. O inconsciente, “a máquina de dar sentido”, inventa, como a maior das defesas, a própria verdade. Como instrumento do trabalho do psicanalista, a verdade é traiçoeira. Ela engana, faz pensar que deve sim existir uma verdade última, ou um sentido último.
“O percurso da análise deve então seguir a retomada destas histórias e o progressivo esvaziamento de seu valor pulsional até que se chegue a uma formulação mínima, onde não há mais dentro e fora, nem sujeito e agente (...) As histórias continuarão lá, mas o sujeito, menos escravo de seus dramas, pode então adquirir uma maior leveza (e não uma maior liberdade) com relação à cadeia de suas determinações. É uma maneira de entendermos a conhecida afirmação freudiana segundo a qual a análise transforma a tragédia do neurótico em drama banal” (VIEIRA, p. 10).
E assim, que se possa concluir que “...no es necesario mucho sentido para vivir. Um poco de saber-hacer com aquello que no tiene sentido alcanza.” (FINK, p.3, 2006)
Referências Bibliográficas
CERVELATTI, Carmem Silva. Não fique doido por uma verdade. (Site EBP)
FINK, Bruce. Fantasias y el fantasma fundamental: uma introducción. Virtualia – Revista Digital de la Escuela de la Orientacción Lacaniana. Jun/Jul-2006
MALENGREAU, Pierre. El acto, aún. Virtualia – Revista Digital de la Escuela de la Orientacción Lacaniana. Jan/Fev-2006.
MONTEIRO, Elisa. Sintoma, fantasia e pulsão. 1997. (Site EBP)
NUNES, Laureci. A descoberta freudiana da fantasia fundamental. In: Fênix.
LACAN, Jacques. O Seminário – livro 17: o avesso da psicanálise. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1992.
VIEIRA, Marcos André. Da realidade ao real – Jacques Lacan e a realidade psíquica. (Site EBP)
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Sujeito Suposto Saber
Como é sabido pelos estudantes e afiliados da psicanálise lacaniana, um dos motivos que gerou o rompimento de Lacan com a Associação Internacional de Psicanálise, diz respeito ao lugar ocupado pelo analista. Os analistas da instituição mais ortodoxa da psicanálise não gostaram de ouvir que não são muito mais do que ocupantes de um lugar de suposição. Lacan deu ao analista o título de Sujeito Suposto Saber.
Aos analistas da IPA, isso soou ameaçador, como se com tal esclarecimento fosse, de fato, perder sua função, como se fossem realmente cair em descrédito. Lacan anunciou a nudez dos Reis da Psicanálise, e esse encontro com o Real da função analítica não poderia deixar de presentificar-se na forma de mal-estar.
Mas o que aqueles analistas parecem não ter aprendido com Freud, é que a teoria e a prática da psicanálise nos mostram que o que se diz a um paciente só tem alcance se encontra eco nos referenciais psíquicos deste, ou melhor, os seres humanos não podem ser tocados subjetivamente por uma informação que não participe de seu conteúdo psíquico.
Neste caso, o fato de o mestre dizer que não é o mestre, depois de ter sido reconhecido como tal por alguém que se subordinou nesta relação, não alcança nenhum reconhecimento significativo no outro.
Sócrates, o sábio que nada sabia, já era bem sabido neste assunto. Não hesitou em dizer o tão conhecido aforismo “sei que nada sei”. Apesar do impacto causado pela afirmação, ou talvez, por causa disto mesmo, Sócrates a mais de dois milênios ocupa lugar central, como mestre, no discurso e no imaginário de nossa cultura. Talvez, porque somente os que sabem muito podem, sem preocupação, nem constrangimento, colocar este lugar de saber a disposição.
O lugar que o mestre ocupa só se desfaz quando o que está submetido sai desta condição a partir dos questionamentos feitos a respeito de sua posição de submissão, isto é, quando se questiona sobre si mesmo e não sobre o outro.
Então, se aqueles analistas sentiram-se preocupados em perder a função de analistas pelo questionamento interno sobre seu lugar de mestria, realmente foram dignos de sofrer as duras críticas de seus dissidentes. Analistas que delirantemente crêem serem mestres, no mínimo, não possibilitarão a seus pacientes chegarem ao fim de suas análises. O Saber do mestre inibe o Saber do Sujeito do Inconsciente.
Em determinado momento de seu ensino Lacan se questiona sobre o que deve saber, em uma análise, o analista. E a resposta que se dá é que o psicanalista deve saber ignorar o que sabe. É somente na ignorância garantida em si mesmo que o analista permite entrar em questão o Sujeito do Inconsciente, isto é, os saberes que estão do lado daquele que vai a procura de sua análise.
Freud também já havia recomendado que cada paciente fosse analisado como se fosse o primeiro de um analista. Isto não significa outra coisa senão que o saber elaborado em uma determinada análise, diz respeito somente ao particular do sujeito em questão. Este não saber, que se dá na função do analista é o que propicia, o que causa o movimento, no analisante de dar conta de seu saber, saber este que dirá algo da verdade de um Sujeito, na singularidade, nunca por completa.
Semi-verdade que vai ser dita a partir do amor endereçado a quem supostamente tem o Saber, mas que só vai ser encarada com tal, isto é, verdade, mas não toda, na medida em que se confrontar com a queda deste ideal suposto.
O analista configura-se para o paciente como aquele que sabe, é um Outro para qual o sujeito transmite seu saber. “ Um sujeito a quem se supõe um saber sobre o que seria sua verdade” (Lima, 2001, p. 4). E se supõe que o outro tem isso que é da verdade do Sujeito que vai a análise, não é por outra via senão a do amor de transferência.
É pela ignorância do analista, que o paciente vai a busca do que se configura como sua cena fantasmática, sua fantasia fundamental, causadora do Sujeito e das vicissitudes de sua existência. Esta fantasia adquiriu status de verdade, de verdade constitutiva. E este saber sobre esta cena fundamental é o que, de fato, importa no percurso analítico.
Neste percurso, a queda inicial do Sujeito Suposto Saber cede lugar ao amor pelo inconsciente. Sujeito Suposto Inconsciente?
A fantasia, base do Sujeito do Inconsciente e que confere ao Outro a suposição de saber, não será digna de ser tratada como um saber somente para que mais tarde possa perder este status? Segundo Lacan, sujeito suposto é um termo redundante, pleonástico, já que sujeito nunca pode ser senão suposto. Assim, o Sujeito do Inconsciente também é um sujeito suposto. E se continuarmos em dedução, não poderíamos pensar que o saber que se espera ouvir do Sujeito do Inconsciente sobre suas fantasias originárias também é um Suposto Saber? Sujeito Suposto Saber não seria, então, o paciente?
Aos analistas da IPA, isso soou ameaçador, como se com tal esclarecimento fosse, de fato, perder sua função, como se fossem realmente cair em descrédito. Lacan anunciou a nudez dos Reis da Psicanálise, e esse encontro com o Real da função analítica não poderia deixar de presentificar-se na forma de mal-estar.
Mas o que aqueles analistas parecem não ter aprendido com Freud, é que a teoria e a prática da psicanálise nos mostram que o que se diz a um paciente só tem alcance se encontra eco nos referenciais psíquicos deste, ou melhor, os seres humanos não podem ser tocados subjetivamente por uma informação que não participe de seu conteúdo psíquico.
Neste caso, o fato de o mestre dizer que não é o mestre, depois de ter sido reconhecido como tal por alguém que se subordinou nesta relação, não alcança nenhum reconhecimento significativo no outro.
Sócrates, o sábio que nada sabia, já era bem sabido neste assunto. Não hesitou em dizer o tão conhecido aforismo “sei que nada sei”. Apesar do impacto causado pela afirmação, ou talvez, por causa disto mesmo, Sócrates a mais de dois milênios ocupa lugar central, como mestre, no discurso e no imaginário de nossa cultura. Talvez, porque somente os que sabem muito podem, sem preocupação, nem constrangimento, colocar este lugar de saber a disposição.
O lugar que o mestre ocupa só se desfaz quando o que está submetido sai desta condição a partir dos questionamentos feitos a respeito de sua posição de submissão, isto é, quando se questiona sobre si mesmo e não sobre o outro.
Então, se aqueles analistas sentiram-se preocupados em perder a função de analistas pelo questionamento interno sobre seu lugar de mestria, realmente foram dignos de sofrer as duras críticas de seus dissidentes. Analistas que delirantemente crêem serem mestres, no mínimo, não possibilitarão a seus pacientes chegarem ao fim de suas análises. O Saber do mestre inibe o Saber do Sujeito do Inconsciente.
Em determinado momento de seu ensino Lacan se questiona sobre o que deve saber, em uma análise, o analista. E a resposta que se dá é que o psicanalista deve saber ignorar o que sabe. É somente na ignorância garantida em si mesmo que o analista permite entrar em questão o Sujeito do Inconsciente, isto é, os saberes que estão do lado daquele que vai a procura de sua análise.
Freud também já havia recomendado que cada paciente fosse analisado como se fosse o primeiro de um analista. Isto não significa outra coisa senão que o saber elaborado em uma determinada análise, diz respeito somente ao particular do sujeito em questão. Este não saber, que se dá na função do analista é o que propicia, o que causa o movimento, no analisante de dar conta de seu saber, saber este que dirá algo da verdade de um Sujeito, na singularidade, nunca por completa.
Semi-verdade que vai ser dita a partir do amor endereçado a quem supostamente tem o Saber, mas que só vai ser encarada com tal, isto é, verdade, mas não toda, na medida em que se confrontar com a queda deste ideal suposto.
O analista configura-se para o paciente como aquele que sabe, é um Outro para qual o sujeito transmite seu saber. “ Um sujeito a quem se supõe um saber sobre o que seria sua verdade” (Lima, 2001, p. 4). E se supõe que o outro tem isso que é da verdade do Sujeito que vai a análise, não é por outra via senão a do amor de transferência.
É pela ignorância do analista, que o paciente vai a busca do que se configura como sua cena fantasmática, sua fantasia fundamental, causadora do Sujeito e das vicissitudes de sua existência. Esta fantasia adquiriu status de verdade, de verdade constitutiva. E este saber sobre esta cena fundamental é o que, de fato, importa no percurso analítico.
Neste percurso, a queda inicial do Sujeito Suposto Saber cede lugar ao amor pelo inconsciente. Sujeito Suposto Inconsciente?
A fantasia, base do Sujeito do Inconsciente e que confere ao Outro a suposição de saber, não será digna de ser tratada como um saber somente para que mais tarde possa perder este status? Segundo Lacan, sujeito suposto é um termo redundante, pleonástico, já que sujeito nunca pode ser senão suposto. Assim, o Sujeito do Inconsciente também é um sujeito suposto. E se continuarmos em dedução, não poderíamos pensar que o saber que se espera ouvir do Sujeito do Inconsciente sobre suas fantasias originárias também é um Suposto Saber? Sujeito Suposto Saber não seria, então, o paciente?
terça-feira, 27 de março de 2007
psicanálise X tcc
“A vida em preto e branco” é um filme que conta a história de um rapaz que assistia um seriado de tv chamado Pleasantville. O rapaz era um exímio conhecedor de todo o seriado, sabia de cor todas as falas e todos os comportamentos dos personagens. Filho de pais separados e descontente com o comportamento da mãe, tem uma irmã que vive liberadamente os prazeres sexuais na juventude.
Brigando pelo uso da televisão, ao apertar um controle remoto, os dois irmãos entram na tv e começam a viver como personagens do seriado.
A cidade de Pleasantville era composta pela rua principal e pela rua secundária. O fim da rua principal era o início da mesma. Não existia o fora em Pleasantville, e todos os comportamentos dos personagens, prescritos como destino por um roteiro, eram rotineiros, habituais e sem novidade alguma. Ao alcançar 6 horas no relógio da sala, o marido abre a porta e diz: “querida, cheguei”, a mulher, com um belo sorriso, coloca uma bandeja de bolinhos sobre a mesa.
O rapaz conhecia o seriado, de modo que sabia como comportar-se em cada cena, já a moça, irritada por estar ali, não via nenhum objetivo para atuar segundo o roteiro original da história. Assim, com suas atitudes não padronizadas, a garota começa a causar certa desordem e em conseqüência caos na cidade de Pleasantville.
Os outros personagens do seriado, diante do inusitado não sabem como comportar-se. Como o roteiro vai mudando eles não sabem mais como devem agir. Os fatos não correspondem mais ao roteiro prescrito. Os personagens começam a demonstrar angústia, tristeza, confusão, comportamentos repetitivos... Porém, em meio a esta desordem instalada, as pessoas começam a descobrir desejos e prazeres, e Pleasantville, na cidade em que só existiam três cores: o preto, o branco e o cinza, outras cores começam a aparecer.
Ante ao caos instalado na cidade pelos comportamentos não escritos no roteiro original do seriado, podemos nos questionar sobre o porquê dos habitantes não conseguirem reagir sem maiores transtornos.
Jacques-Alan Miller nos ajuda a resolver o mistério, quando diz:
“Se produce um trauma cuando um hecho entra em oposición com um dicho, com um dicho esencial de la vida del paciente, cuando hay uma contradicción entre el hecho y lo dicho” (Efectos terapêutico rápidos).
Não poderíamos encontrar um melhor modelo para compreender a relação com o dito/roteiro e o fato/o que acontece na cena. Os habitantes de Pleasantville diante da contradição entre o roteiro e o que de diferente se estabelecia não puderam dar nenhuma resposta senão outra digna de uma reação traumática. O roteiro – dito essencial da vida destes personagens – fora ignorado pelos fatos que se sucederam. Mas os personagens não puderam ignorar nem o roteiro e nem os novos fatos: criou-se o caos.
E assim se produz sintoma, quando um dito essencial da vida sujeito entra em oposição com um fato. O sujeito não pode ignorar o dito que é estabelecido como a verdade de sua vida, mas também não pode ignorar o fato. Assim, para situar-se entre o dito e o fato estabelece-se numa posição sintomática.
Jorge Forbes com outras palavras, também nos ajuda a entender a questão. Afirma, em uma apresentação no “Café filosófico” – programa apresentado pela TV Cultura, que só existe adversidade para aquele que acha que existe uma versão principal. “Se eu tiver uma multiplicidade de versões, eu não tenho adversidade”, diz. Isto é, se multiplicar os ditos, se poderá ter menos contradição com os fatos.
Ante ao mal-estar instituído pelo caos, ou pela adversidade, múltiplas formas de lidar com este vão sendo desenvolvidas pelo mundo afora. O sujeito que sofre precisa ser tratado! E os tratamentos sempre foram das espécies mais diversificadas em toda a história da humanidade.
Nos últimos tempos, temos vivido uma época em que se crê poder controlar o mal-estar e ainda, muitas vezes, o que lhe causa.
O filme de que aqui se fala inicia com uma aula na qual a professora expõe as estatísticas da fome e de alguns perigos a que a humanidade está submetida. Assim, cria-se primeiro o medo, a cultura do medo e as estatísticas do medo. As estatísticas são a base para o controle. Diante das estatísticas do medo queremos estar fora delas e então pedimos pelo controle. Pedimos por uma vida controlada e agradável.
A Terapia Cognitiva Comportamental é uma forma moderna de se tratar o sofrimento psíquico. Através de técnicas de adaptação, aprendizagem e controle, promete aos pacientes a supressão dos sintomas que os fazem sofrer. É, sobretudo, uma terapia em que o saber sobre o que deve se fazer com o sintoma e a forma de fazê-lo vem do outro, mostrando assim, que está longe de querer emancipar o sujeito. Não há espaço para as diferenças e para outros desejos. Há um protocolo inicial que diz o que é bem-estar e saúde.
O problema da TCC é que ao calar o sujeito, as diferenças e controlarem os sintomas ou que o faz doer no sujeito ante o Real, é que torna o sujeito ainda mais frágil e despreparado ante o imprevisível e caótico que sempre se impõe. A questão é que nosso mundo não é Pleasantville antes da invasão dos desejantes. Em nosso mundo, mesmo que passássemos todos por uma boa terapia cognitiva comportamental, mesmo que todos fossemos controlados, em nosso mundo, o Real (como as tempestades, os acidentes) não deixará de existir. O Real se imporá sempre, e sem lei, sem ordem, nem previsão. E o que nos resta é possibilitar aos sujeitos que alarguem suas versões sobre o que podem suportar no mundo. Que alarguem as fronteiras de suas idealizações e que possam então saber-fazer com o que lhes acontece.
Este é, sobretudo, o objetivo de uma análise. Diz Jorge Forbes: “O objetivo de uma análise não é reforçar o ego. Formar uma pessoa cheia de certezas do que ela quer, do que ela faz, um bom administrador da vida. O objetivo de uma análise é formar um homem pronto a todas as circunstâncias – não preconizando o cinismo. Não quer dizer que não tem nenhum tipo de eixo, de amarração, não é o homem ilimitado, não é o homem pode-tudo, não é o homem ‘liberou geral’. É o homem que destituído do peso das identificações verticais (que são, na maior parte, peso, nostalgia, constrangimento, mortificação)” pode ter um novo modo de enfrentar as novas versões apresentadas na vida, não mais como adversidades.
Dizer que o mundo ficaria chato sem as diferenças, com as pessoas iguais, ou robotizadas, com o controle exacerbado é não dar o devido valor ao fato. Não é isso! O mundo, ou a nossa vida, ficaria ainda mais frágil e em risco.
No final do filme, dois personagens, sentados num banco dizem sorrindo: “eu não sei o que vai acontecer”. Romanticamente ouvimos repetidamente que a vida seria um tédio se tudo fosse sempre igual e previsível, que o bom da vida é não saber o que nos espera. Mas o bom da vida, não é simplesmente que não sabemos o que vai acontecer, o bom da vida mesmo, é quando podemos saber-fazer algo diante do imprevisível.
O que vai acontecer, eu não sei. E não me basta que um sintoma tenha sido curado para que eu possa não criar outro diante de novos confrontamentos com o Real que necessariamente me acontecerão. Para além do sintoma, há um sujeito que precisa rever sua posição ante as adversidades, os traumas, o caos, o Real.
Brigando pelo uso da televisão, ao apertar um controle remoto, os dois irmãos entram na tv e começam a viver como personagens do seriado.
A cidade de Pleasantville era composta pela rua principal e pela rua secundária. O fim da rua principal era o início da mesma. Não existia o fora em Pleasantville, e todos os comportamentos dos personagens, prescritos como destino por um roteiro, eram rotineiros, habituais e sem novidade alguma. Ao alcançar 6 horas no relógio da sala, o marido abre a porta e diz: “querida, cheguei”, a mulher, com um belo sorriso, coloca uma bandeja de bolinhos sobre a mesa.
O rapaz conhecia o seriado, de modo que sabia como comportar-se em cada cena, já a moça, irritada por estar ali, não via nenhum objetivo para atuar segundo o roteiro original da história. Assim, com suas atitudes não padronizadas, a garota começa a causar certa desordem e em conseqüência caos na cidade de Pleasantville.
Os outros personagens do seriado, diante do inusitado não sabem como comportar-se. Como o roteiro vai mudando eles não sabem mais como devem agir. Os fatos não correspondem mais ao roteiro prescrito. Os personagens começam a demonstrar angústia, tristeza, confusão, comportamentos repetitivos... Porém, em meio a esta desordem instalada, as pessoas começam a descobrir desejos e prazeres, e Pleasantville, na cidade em que só existiam três cores: o preto, o branco e o cinza, outras cores começam a aparecer.
Ante ao caos instalado na cidade pelos comportamentos não escritos no roteiro original do seriado, podemos nos questionar sobre o porquê dos habitantes não conseguirem reagir sem maiores transtornos.
Jacques-Alan Miller nos ajuda a resolver o mistério, quando diz:
“Se produce um trauma cuando um hecho entra em oposición com um dicho, com um dicho esencial de la vida del paciente, cuando hay uma contradicción entre el hecho y lo dicho” (Efectos terapêutico rápidos).
Não poderíamos encontrar um melhor modelo para compreender a relação com o dito/roteiro e o fato/o que acontece na cena. Os habitantes de Pleasantville diante da contradição entre o roteiro e o que de diferente se estabelecia não puderam dar nenhuma resposta senão outra digna de uma reação traumática. O roteiro – dito essencial da vida destes personagens – fora ignorado pelos fatos que se sucederam. Mas os personagens não puderam ignorar nem o roteiro e nem os novos fatos: criou-se o caos.
E assim se produz sintoma, quando um dito essencial da vida sujeito entra em oposição com um fato. O sujeito não pode ignorar o dito que é estabelecido como a verdade de sua vida, mas também não pode ignorar o fato. Assim, para situar-se entre o dito e o fato estabelece-se numa posição sintomática.
Jorge Forbes com outras palavras, também nos ajuda a entender a questão. Afirma, em uma apresentação no “Café filosófico” – programa apresentado pela TV Cultura, que só existe adversidade para aquele que acha que existe uma versão principal. “Se eu tiver uma multiplicidade de versões, eu não tenho adversidade”, diz. Isto é, se multiplicar os ditos, se poderá ter menos contradição com os fatos.
Ante ao mal-estar instituído pelo caos, ou pela adversidade, múltiplas formas de lidar com este vão sendo desenvolvidas pelo mundo afora. O sujeito que sofre precisa ser tratado! E os tratamentos sempre foram das espécies mais diversificadas em toda a história da humanidade.
Nos últimos tempos, temos vivido uma época em que se crê poder controlar o mal-estar e ainda, muitas vezes, o que lhe causa.
O filme de que aqui se fala inicia com uma aula na qual a professora expõe as estatísticas da fome e de alguns perigos a que a humanidade está submetida. Assim, cria-se primeiro o medo, a cultura do medo e as estatísticas do medo. As estatísticas são a base para o controle. Diante das estatísticas do medo queremos estar fora delas e então pedimos pelo controle. Pedimos por uma vida controlada e agradável.
A Terapia Cognitiva Comportamental é uma forma moderna de se tratar o sofrimento psíquico. Através de técnicas de adaptação, aprendizagem e controle, promete aos pacientes a supressão dos sintomas que os fazem sofrer. É, sobretudo, uma terapia em que o saber sobre o que deve se fazer com o sintoma e a forma de fazê-lo vem do outro, mostrando assim, que está longe de querer emancipar o sujeito. Não há espaço para as diferenças e para outros desejos. Há um protocolo inicial que diz o que é bem-estar e saúde.
O problema da TCC é que ao calar o sujeito, as diferenças e controlarem os sintomas ou que o faz doer no sujeito ante o Real, é que torna o sujeito ainda mais frágil e despreparado ante o imprevisível e caótico que sempre se impõe. A questão é que nosso mundo não é Pleasantville antes da invasão dos desejantes. Em nosso mundo, mesmo que passássemos todos por uma boa terapia cognitiva comportamental, mesmo que todos fossemos controlados, em nosso mundo, o Real (como as tempestades, os acidentes) não deixará de existir. O Real se imporá sempre, e sem lei, sem ordem, nem previsão. E o que nos resta é possibilitar aos sujeitos que alarguem suas versões sobre o que podem suportar no mundo. Que alarguem as fronteiras de suas idealizações e que possam então saber-fazer com o que lhes acontece.
Este é, sobretudo, o objetivo de uma análise. Diz Jorge Forbes: “O objetivo de uma análise não é reforçar o ego. Formar uma pessoa cheia de certezas do que ela quer, do que ela faz, um bom administrador da vida. O objetivo de uma análise é formar um homem pronto a todas as circunstâncias – não preconizando o cinismo. Não quer dizer que não tem nenhum tipo de eixo, de amarração, não é o homem ilimitado, não é o homem pode-tudo, não é o homem ‘liberou geral’. É o homem que destituído do peso das identificações verticais (que são, na maior parte, peso, nostalgia, constrangimento, mortificação)” pode ter um novo modo de enfrentar as novas versões apresentadas na vida, não mais como adversidades.
Dizer que o mundo ficaria chato sem as diferenças, com as pessoas iguais, ou robotizadas, com o controle exacerbado é não dar o devido valor ao fato. Não é isso! O mundo, ou a nossa vida, ficaria ainda mais frágil e em risco.
No final do filme, dois personagens, sentados num banco dizem sorrindo: “eu não sei o que vai acontecer”. Romanticamente ouvimos repetidamente que a vida seria um tédio se tudo fosse sempre igual e previsível, que o bom da vida é não saber o que nos espera. Mas o bom da vida, não é simplesmente que não sabemos o que vai acontecer, o bom da vida mesmo, é quando podemos saber-fazer algo diante do imprevisível.
O que vai acontecer, eu não sei. E não me basta que um sintoma tenha sido curado para que eu possa não criar outro diante de novos confrontamentos com o Real que necessariamente me acontecerão. Para além do sintoma, há um sujeito que precisa rever sua posição ante as adversidades, os traumas, o caos, o Real.
Amor pela psicanálise
Quando pensamos em uma escola, em geral, nos vem à cabeça um lugar onde passamos para aprender determinadas coisas que farão alguma diferença em nossa vida. Esta escola nos forma para o depois. Ela é um lugar de passagem, lugar que pressupõe uma verdade, na qual o que irá se modificar é a pessoa que a ela se submeter.
Mas, quando se trata de psicanálise, não poderíamos pensar em uma escola deste molde. Uma escola que forma para depois. Uma escola em que se pressupõe uma verdade, na qual os sujeitos podem se formar. Se numa escola psicanalítica, as pessoas estão em constante aprendizagem, não é para depois. Espera-se, nesta, que os sujeitos não se formem, ou não se sintam formados, a ponto de abandoná-la, como fazemos com as outras escolas. A formação em uma escola psicanalítica não tem fim, nunca chega à hora de se diplomar. Quem entra numa escola como esta, entra com o objetivo de não sair.
Mas por quê? Primeiro, porque já sabemos que a formação do analista nunca chega ao final. A formação é infinita. E segundo, por que a verdade, geralmente digno objeto de uma escola, não é, ou não pode ser, total numa escola psicanalítica. Esta escola nunca sabe o todo, nunca tem o saber absoluto. Mas apesar de saber que nunca poderá oferecer uma verdade totalizante, não cessa de se pôr à busca de mais saber. Porque quem, ou melhor, o que está em formação nesta escola, não são apenas seus membros ou quem ao redor dela se situa, mas sim a própria psicanálise. Se existe um aluno nesta escola que nunca se forma é a própria psicanálise. E é ela para a qual todas as atenções se dirigem, é para a formação dela que todos trabalham. É para que ela possa aprender a ser um digno instrumento para olhar e tratar o mal-estar da época presente é que se trabalha sem cessar.
É nesta escola de psicanálise que acredito! É nesta escola de psicanálise em que, como analista, quero dedicar minha formação continuada e permanente, e fazer do meu trabalho e dedicação, uma fonte de saber para a psicanálise. Para que a psicanálise possa ser sempre viva, sempre a altura de seu tempo.
segunda-feira, 13 de novembro de 2006
Prepotência, vaidade, exibicionismo
Exibicionismo é uma vaidade ao avesso!
O que me faz lembrar a palavra exibicionismo?
Lembro de uma cantiga infantil: Exibida, colorida, come casca de ferida, come bem, come mal, come casca de animal.
Tu és o que comes! A boca abocanha o si mesmo todo o tempo. A exibida come a casca e é a própria casca. E o que está sob a casca é a ferida. A exibida come casca porque é a casca e mostra a ferida. Mostra a falha. O ferimento. Come a casca e mostra do que é feita. Pura ferida.
O que me faz lembrar a palavra exibicionismo?
Lembro de uma cantiga infantil: Exibida, colorida, come casca de ferida, come bem, come mal, come casca de animal.
Tu és o que comes! A boca abocanha o si mesmo todo o tempo. A exibida come a casca e é a própria casca. E o que está sob a casca é a ferida. A exibida come casca porque é a casca e mostra a ferida. Mostra a falha. O ferimento. Come a casca e mostra do que é feita. Pura ferida.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2006
Os não-tolos erram, ou o que os psicanalistas precisam aprender com os portugueses
Todos estavam prestes a apedrejar Maria Madalena, quando Jesus falou:
- "Quem nunca errou que jogue a primeira pedra!"
Um português juntou rapidamente do chão o maior pedregulho que achou e jogou, acertando Maria Madalena.
Jesus chegou até ele e perguntou:
- "Você nunca errou?"
O português respondeu:
- "Dessa distância eu nunca errei senhor!"
Um português liga para a delegacia e pergunta?
--O delegado está aí? Gostaria de falar com ele.
--Pode falar, é o próprio!
--Oi Próprio, tudo bem, chama o delegado pra mim, por favor.
Passando em frente a um chaveiro, um português vê a placa "Trocam-se segredos". Manoel entra na lojinha, olha para os dois lados e fala no ouvido do homem:- Eu sou gay, e você?
Dois amigos portugueses se encontram.
- Ó Manuel, há quanto tempo! Como anda o nosso amigo Joaquim?
- Você não sabe que desgraça aconteceu? O Joaquim foi pego roubando ovos, foi julgado e condenado.
- E daí?
- Ele foi enforcado!
- Meu Deus, pelos ovos?!
- Não pelo pescoço!
Um português estava parado na esquina quando um cara apressado perguntou pra ele:
- Você viu alguém dobrando a esquina? O português respondeu:
- Não senhor, quando cheguei aqui já estava dobrada!
São famosas e inúmeras as piadas que se faz a respeito da compreensão dos portugueses em relação aos ditos. Bem, ouso dizer que o que nos faz rir diante destas histórias não é digno de ser chamado de piada, mas sim de chiste.
Um chiste é uma formação da linguagem que nos provoca certo mal-estar e riso por nos transmitir uma verdade.
Mas qual seria a verdade para nós transmitida pela dita “piada de português”? Que verdade seria esta que nos causaria algo entre o riso e o mal-estar?
É a própria verdade de que não há relação imediata entre o significante e o significado.
Bem, vamos ver, do que se trata estas piadas: “Maria diz algo a Joaquim e Joaquim tem determinado comportamento por compreender de forma equivocada o que Maria havia dito. Equivocada? Será possível dizer que Joaquim entendeu errado? Ouso dizer que o que nos faz rir não é a possível tolice do Joaquim, pelo contrário, é o mal-estar ante ao encontro com o Real de que não há relação sexual. De que o significante não está colado ao significado, que, ao contrário, eles estão separados por uma barra. Do Real só podemos nos aproximar pela palavra. E elas não dão conta de nomeá-lo. Sempre se pode dizer mais ou se dizer menos e mesmo assim, o Real não pode ser apreendido.
Os não tolos erram. E se considerarmos o Joaquim um tolo, seremos nós os equivocados. Se nos considerarmos não tolos aos rirmos da tolice de Joaquim, estaremos incontestavelmente caídos no erro.
“Todos sabemos por que inventamos um truque para encher o furo (trou) no real ... Ali onde não há relação sexual, há traumatisme. Cada um inventa o que pode”. (Lacan, sem. XXI)
Nós inventamos chamar piada ao que os portugueses (pelo menos os da piada) nos mostram explicitamente: que não há relação estrita de significação, que não há relação sexual.
- "Quem nunca errou que jogue a primeira pedra!"
Um português juntou rapidamente do chão o maior pedregulho que achou e jogou, acertando Maria Madalena.
Jesus chegou até ele e perguntou:
- "Você nunca errou?"
O português respondeu:
- "Dessa distância eu nunca errei senhor!"
Um português liga para a delegacia e pergunta?
--O delegado está aí? Gostaria de falar com ele.
--Pode falar, é o próprio!
--Oi Próprio, tudo bem, chama o delegado pra mim, por favor.
Passando em frente a um chaveiro, um português vê a placa "Trocam-se segredos". Manoel entra na lojinha, olha para os dois lados e fala no ouvido do homem:- Eu sou gay, e você?
Dois amigos portugueses se encontram.
- Ó Manuel, há quanto tempo! Como anda o nosso amigo Joaquim?
- Você não sabe que desgraça aconteceu? O Joaquim foi pego roubando ovos, foi julgado e condenado.
- E daí?
- Ele foi enforcado!
- Meu Deus, pelos ovos?!
- Não pelo pescoço!
Um português estava parado na esquina quando um cara apressado perguntou pra ele:
- Você viu alguém dobrando a esquina? O português respondeu:
- Não senhor, quando cheguei aqui já estava dobrada!
São famosas e inúmeras as piadas que se faz a respeito da compreensão dos portugueses em relação aos ditos. Bem, ouso dizer que o que nos faz rir diante destas histórias não é digno de ser chamado de piada, mas sim de chiste.
Um chiste é uma formação da linguagem que nos provoca certo mal-estar e riso por nos transmitir uma verdade.
Mas qual seria a verdade para nós transmitida pela dita “piada de português”? Que verdade seria esta que nos causaria algo entre o riso e o mal-estar?
É a própria verdade de que não há relação imediata entre o significante e o significado.
Bem, vamos ver, do que se trata estas piadas: “Maria diz algo a Joaquim e Joaquim tem determinado comportamento por compreender de forma equivocada o que Maria havia dito. Equivocada? Será possível dizer que Joaquim entendeu errado? Ouso dizer que o que nos faz rir não é a possível tolice do Joaquim, pelo contrário, é o mal-estar ante ao encontro com o Real de que não há relação sexual. De que o significante não está colado ao significado, que, ao contrário, eles estão separados por uma barra. Do Real só podemos nos aproximar pela palavra. E elas não dão conta de nomeá-lo. Sempre se pode dizer mais ou se dizer menos e mesmo assim, o Real não pode ser apreendido.
Os não tolos erram. E se considerarmos o Joaquim um tolo, seremos nós os equivocados. Se nos considerarmos não tolos aos rirmos da tolice de Joaquim, estaremos incontestavelmente caídos no erro.
“Todos sabemos por que inventamos um truque para encher o furo (trou) no real ... Ali onde não há relação sexual, há traumatisme. Cada um inventa o que pode”. (Lacan, sem. XXI)
Nós inventamos chamar piada ao que os portugueses (pelo menos os da piada) nos mostram explicitamente: que não há relação estrita de significação, que não há relação sexual.
quinta-feira, 13 de maio de 2004
sexta-feira, 16 de abril de 2004
Eva ou Maria?
Em nossa cultura ocidental, dois grandes mitos do feminino formam o imaginário popular a respeito do ser mulher: Eva e Maria.
Eva, a primeira mulher, a mulher que figura o pecado. O pecado original. Aquela que perturba o homem, que o lança no mal caminho. A imagem do sexo. A imagem do proibido. Do fruto proibido. Aquela que nasceu do homem (nasceu da costela de Adão) e por falta de gratidão e bondade, tira-o do paraíso celeste, lançando-o ao inferno terrestre. Lançando ao inferno do desejo, desejo pelo proibido. Ao inferno do desejo e de sua insatisfação. É Eva a imagem da mulher que tira o homem de sua razão, que o desconcerta. É a imagem da paixão que cega, que enlouquece, que instiga ao crime.
Mas se Eva peca pela desobediência e pela ingratidão, Maria, ao contrário, é imagem da pureza, da candura, da resignação, da subserviência.
Maria é imagem da mãe. Da mãe assexuada, virgem, que tem em seu ventre um filho, sem ter sofrido o pecado do sexo. Maria, a imagem da santidade, da bondade, do altruísmo. Maria não tem desejo, nem inspira o desejo. Coloca seu único filho no mundo para salvar a humanidade do mal cometido pela primeira e pecaminosa mulher.
Mas o fato é que nos mulheres não somos mitos, não temos, sozinhas, o poder para destruir ou salvar toda uma humanidade. Não somos A mulher, somos apenas mulheres. Nem Eva, nem Maria, apenas mulheres.
Eva, a primeira mulher, a mulher que figura o pecado. O pecado original. Aquela que perturba o homem, que o lança no mal caminho. A imagem do sexo. A imagem do proibido. Do fruto proibido. Aquela que nasceu do homem (nasceu da costela de Adão) e por falta de gratidão e bondade, tira-o do paraíso celeste, lançando-o ao inferno terrestre. Lançando ao inferno do desejo, desejo pelo proibido. Ao inferno do desejo e de sua insatisfação. É Eva a imagem da mulher que tira o homem de sua razão, que o desconcerta. É a imagem da paixão que cega, que enlouquece, que instiga ao crime.
Mas se Eva peca pela desobediência e pela ingratidão, Maria, ao contrário, é imagem da pureza, da candura, da resignação, da subserviência.
Maria é imagem da mãe. Da mãe assexuada, virgem, que tem em seu ventre um filho, sem ter sofrido o pecado do sexo. Maria, a imagem da santidade, da bondade, do altruísmo. Maria não tem desejo, nem inspira o desejo. Coloca seu único filho no mundo para salvar a humanidade do mal cometido pela primeira e pecaminosa mulher.
Mas o fato é que nos mulheres não somos mitos, não temos, sozinhas, o poder para destruir ou salvar toda uma humanidade. Não somos A mulher, somos apenas mulheres. Nem Eva, nem Maria, apenas mulheres.
Os sentimentos da modernidade
Quem não se lembra da época em que apenas o olhar paterno bastava para que o filho soubesse o que deveria ou não deveria ser feito? Quem não se lembra da época em que a profissão ou até mesmo o casamento era escolhido pelos progenitores? Quem não se lembra da época em que o que era certo e errado estava bastante claro para todos e, inclusive, era consenso. Porém, esta é, sem dúvidas, uma época em decadência. A cada dia percebemos a diluição deste poder, e em conseqüência, o que é certo e errado passa a ser colocado em questão.
Podemos perceber concretamente que as figuras representativas do poder estão sendo diluídas: as relações familiares se modificam, sendo que a figura central deixa de ser o pai e passa a ser a relação familiar em si mesmo; os professores perdem o lugar da mestria, isto é, o lugar de quem sabe, e passa a ser um agente proporcionador do encontro do aluno com um aprendizado específico; o próprio Direito está diluindo seu poder na medida em que propicia sua privatização, a lei deixa de ser regida por uma única instância, o Estado, representada pela emblemática figura de um juiz, para ser aplicada por instâncias outras, como institutos de mediação e arbitragem, nos quais não há uma autoridade decisória, mas há uma condução para a resolução de um determinado conflito. É a época da comunicação e da discussão, e é através destas que o poder se dilui.
E a medida em que o poder se dilui, as certezas a respeito do ser e a respeito da vida entram em decadência. Antes, havia alguém (pai, professor, juiz, etc.) que supostamente sabia o que era certo e errado, e através do seu poder se constituía a idéia de verdade. Hoje não conferimos mais ao outro a verdade sobre nossas vidas, temos que decidi-la sozinhos. E descobrir nossa verdade neste mundo de muitas possibilidades, faz-nos, muitas vezes, sentir angústia e até solidão.
“Eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte”, diz Saint-Preux, o protagonista da novela A nova Heloísa, de Rousseau.
Este é um sentimento próprio de nossa modernidade, época que se caracteriza por propiciar ao homem uma vasta gama de possibilidades. Vivemos um momento no qual tudo é possível, nada é absurdo, tudo deve ser considerado.
O homem moderno das múltiplas possibilidades sofre por ter que se confrontar com o seu desejo e por se ver responsavelmente implicado nas suas escolhas. Sofre com o desamparo frente a contingência da vida moderna, já que perdeu, com a queda da moralidade ortodoxa, uma certa referência do que deve ser ou do que deve fazer, do certo e errado, e passa a ser o responsável pela formulação destas questões, restando, enfim, a incerteza, a solidão e por conseqüência, a famosa doença do século que se foi: a depressão.
Isto tudo caracteriza uma forte mudança na história da condição humana. e resta-nos perguntarmos: o que é melhor, sofrer com a angústia de ter que encontrar nosso próprio desejo, ou sofrer com a angústia de ter nosso próprio desejo esmagado pelo desejo de um outro?
Podemos perceber concretamente que as figuras representativas do poder estão sendo diluídas: as relações familiares se modificam, sendo que a figura central deixa de ser o pai e passa a ser a relação familiar em si mesmo; os professores perdem o lugar da mestria, isto é, o lugar de quem sabe, e passa a ser um agente proporcionador do encontro do aluno com um aprendizado específico; o próprio Direito está diluindo seu poder na medida em que propicia sua privatização, a lei deixa de ser regida por uma única instância, o Estado, representada pela emblemática figura de um juiz, para ser aplicada por instâncias outras, como institutos de mediação e arbitragem, nos quais não há uma autoridade decisória, mas há uma condução para a resolução de um determinado conflito. É a época da comunicação e da discussão, e é através destas que o poder se dilui.
E a medida em que o poder se dilui, as certezas a respeito do ser e a respeito da vida entram em decadência. Antes, havia alguém (pai, professor, juiz, etc.) que supostamente sabia o que era certo e errado, e através do seu poder se constituía a idéia de verdade. Hoje não conferimos mais ao outro a verdade sobre nossas vidas, temos que decidi-la sozinhos. E descobrir nossa verdade neste mundo de muitas possibilidades, faz-nos, muitas vezes, sentir angústia e até solidão.
“Eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte”, diz Saint-Preux, o protagonista da novela A nova Heloísa, de Rousseau.
Este é um sentimento próprio de nossa modernidade, época que se caracteriza por propiciar ao homem uma vasta gama de possibilidades. Vivemos um momento no qual tudo é possível, nada é absurdo, tudo deve ser considerado.
O homem moderno das múltiplas possibilidades sofre por ter que se confrontar com o seu desejo e por se ver responsavelmente implicado nas suas escolhas. Sofre com o desamparo frente a contingência da vida moderna, já que perdeu, com a queda da moralidade ortodoxa, uma certa referência do que deve ser ou do que deve fazer, do certo e errado, e passa a ser o responsável pela formulação destas questões, restando, enfim, a incerteza, a solidão e por conseqüência, a famosa doença do século que se foi: a depressão.
Isto tudo caracteriza uma forte mudança na história da condição humana. e resta-nos perguntarmos: o que é melhor, sofrer com a angústia de ter que encontrar nosso próprio desejo, ou sofrer com a angústia de ter nosso próprio desejo esmagado pelo desejo de um outro?
domingo, 4 de abril de 2004
Casar ou não casar: eis a questão!
Até algum tempo atrás, a questão exposta no título deste artigo não era pertinente, visto que havia a crença de que todos nós, seres humanos, nascemos e crescemos para nos unirmos a alguém e vivermos uma relação consolidada pelos laços do matrimônio. E ainda mais: esta união havia de ser respaldada pelas duas maiores instâncias da Lei em nossa cultura: a Igreja e o Estado.
Então, com a certeza inabalável de estar dando um passo a frente em seu desenvolvimento pessoal, de estar cumprindo “as ordens da natureza humana”, homens e mulheres casavam-se no religioso e no civil.
Porém, nossa modernidade é marcada, sobretudo, por um grande abalo nas certezas, nas convicções. Vivemos em um momento da história em que tudo se questiona. Também vivemos a era das sensações, dos pequenos prazeres, na qual os sentimento são efêmeros, evanescentes.
Nesta era dos questionamentos e da efemeridade, repensa-se as relações interpessoais, dentre elas, o casamento.
O casamento como vínculo contratual deixou de ser obrigatoriedade, mesmo que moral, e cada vez mais o número de vínculos destes modos de vida tem-se dispensado e até mesmo desfeito.
Mas porque nosso comportamento em relação a esta temática tem se transformado tão duramente? Em geral, a crítica que se faz a instituição casamento refere-se, sobretudo, a subjugação a que, na maior parte das vezes, se impõe os envolvidos em tal relação. No casamento é como se desaparecessem os sujeitos para nascer um terceiro elemento: a relação.
E como vivemos numa época na qual se considera largamente a subjetividade, a individualidade e os interesses de cada um, cada vez menos cedemos aos interesses dos outros em detrimento dos nossos, e já nos diziam os antigos: casamento é doação... Logo, dizemos cada vez menos sim ao casamento. Só que ainda não sabemos direito o que fazer com estas incertezas a respeito desta temática. Devemos entender que este novo tipo de comportamento é fruto de nosso momento histórico, é próprio da modernidade. Como diz Jurandir Freire Costa, hoje em dia “queremos um amor imortal, mas com data de validade marcada”, ainda não abandamos nosso ideal de felicidade que está ligado a um relacionamento amoroso, mas ao mesmo tempo, questionamo-nos sobre ele. Assim, a pergunta sobre casar-se ou casar-se assola-nos constantemente a cabeça.
Devemos nos perguntar: é ruim isto que está nos acontecendo? É ruim estar privilegiando tanto o sujeito em detrimento destas relações historicamente criticadas? Na verdade não. Pelo contrário. Não há nada de ruim quando conseguimos nos relacionar com alguém sem desconsiderarmos nossos próprios desejos e interesses, bem como os desejos e interesses daquele com quem nos relacionamos.
Porém, temos que tomar o cuidado para não assumirmos uma moral inversa, isto é, não dizermos não aos vínculos só pelas críticas que se fazem a eles. Devemos, sim, sempre repensarmos a forma de vida que levamos, sobretudo para encontrarmos nosso próprio desejo.
Então, com a certeza inabalável de estar dando um passo a frente em seu desenvolvimento pessoal, de estar cumprindo “as ordens da natureza humana”, homens e mulheres casavam-se no religioso e no civil.
Porém, nossa modernidade é marcada, sobretudo, por um grande abalo nas certezas, nas convicções. Vivemos em um momento da história em que tudo se questiona. Também vivemos a era das sensações, dos pequenos prazeres, na qual os sentimento são efêmeros, evanescentes.
Nesta era dos questionamentos e da efemeridade, repensa-se as relações interpessoais, dentre elas, o casamento.
O casamento como vínculo contratual deixou de ser obrigatoriedade, mesmo que moral, e cada vez mais o número de vínculos destes modos de vida tem-se dispensado e até mesmo desfeito.
Mas porque nosso comportamento em relação a esta temática tem se transformado tão duramente? Em geral, a crítica que se faz a instituição casamento refere-se, sobretudo, a subjugação a que, na maior parte das vezes, se impõe os envolvidos em tal relação. No casamento é como se desaparecessem os sujeitos para nascer um terceiro elemento: a relação.
E como vivemos numa época na qual se considera largamente a subjetividade, a individualidade e os interesses de cada um, cada vez menos cedemos aos interesses dos outros em detrimento dos nossos, e já nos diziam os antigos: casamento é doação... Logo, dizemos cada vez menos sim ao casamento. Só que ainda não sabemos direito o que fazer com estas incertezas a respeito desta temática. Devemos entender que este novo tipo de comportamento é fruto de nosso momento histórico, é próprio da modernidade. Como diz Jurandir Freire Costa, hoje em dia “queremos um amor imortal, mas com data de validade marcada”, ainda não abandamos nosso ideal de felicidade que está ligado a um relacionamento amoroso, mas ao mesmo tempo, questionamo-nos sobre ele. Assim, a pergunta sobre casar-se ou casar-se assola-nos constantemente a cabeça.
Devemos nos perguntar: é ruim isto que está nos acontecendo? É ruim estar privilegiando tanto o sujeito em detrimento destas relações historicamente criticadas? Na verdade não. Pelo contrário. Não há nada de ruim quando conseguimos nos relacionar com alguém sem desconsiderarmos nossos próprios desejos e interesses, bem como os desejos e interesses daquele com quem nos relacionamos.
Porém, temos que tomar o cuidado para não assumirmos uma moral inversa, isto é, não dizermos não aos vínculos só pelas críticas que se fazem a eles. Devemos, sim, sempre repensarmos a forma de vida que levamos, sobretudo para encontrarmos nosso próprio desejo.
quinta-feira, 18 de março de 2004
O nascimento do amor
Barthes em seu Fragmentos do discurso amoroso, descreve três etapas a vida amorosa. Neste texto falarei sobre as duas primeiras: “a primeira é instantânea, a captura (sou raptado por uma imagem); em seguida vem uma série de encontros (encontros pessoais, telefonemas, cartas, e pequenas viagens), no decorrer dos quais “exploro”, extasiado, a perfeição do amado, ou melhor, a adequação inesperada de um objeto ao meu desejo: é a doçura do começo, o tempo idílico.”
Este doce tempo do começo é o tempo da paixão ardente, é o tempo em que a razão pouco importa. Tudo parece mais bonito aos nossos olhos quando encontramos o amor. Nunca a luz do sol, a chuva, as estrelas e o canto dos pássaros, parecem tão atraentes.
Só o que não é perfeito neste momento de paixão é não poder estarmos juntos a todo instante. A triste separação que a realidade nos obriga, às vezes dói como se estivéssemos perdendo uma parte de nosso próprio corpo. O trabalho, a família, os amigos, nada, nem ninguém nos importa. Tudo parece sem sentido quando não estamos na presença do amado. Sem sua presença nada tem graça, nem razão de ser. É o momento mágico que bem parece com a magia da simbiose entre a mãe e seu bebê.
Quase temos vontade de entrar no corpo do outro, e dois fazerem apenas Um, como no princípio eram mãe e filho. Um para quem a realidade pouco importa. Um para que não haja a tristeza da separação. E nas mãos entrelaçadas andando pelas calçadas, nos abraços que não se findam, no toque dos lábios, e no ato sexual, somos por alguns instantes este Um. Somos um a extensão do outro.
A história e os amigos gritam nos dizendo que esta paixão, êxtase de paixão, tende a não seguir adiante; tende a caminhar para o fim, para a triste desilusão do desencontro. Porém, surdos e cegos para tudo e para todos recusamo-nos a ouvi-los. Pouco importa a história dos outros, as desilusões dos outros. Resta-nos a certeza de que nossa história será outra, terá final de novela, sempre feliz. Resta-nos a certeza de que o amor nasceu em nós e ali permanecerá. Seremos o primeiro casal a provar que a realidade da vida e a realidade do desejo não irá nos a abalar.
Resta-nos, por fim, a prova do tempo... e como diz o poeta: que seja eterno enquanto dure.
Este doce tempo do começo é o tempo da paixão ardente, é o tempo em que a razão pouco importa. Tudo parece mais bonito aos nossos olhos quando encontramos o amor. Nunca a luz do sol, a chuva, as estrelas e o canto dos pássaros, parecem tão atraentes.
Só o que não é perfeito neste momento de paixão é não poder estarmos juntos a todo instante. A triste separação que a realidade nos obriga, às vezes dói como se estivéssemos perdendo uma parte de nosso próprio corpo. O trabalho, a família, os amigos, nada, nem ninguém nos importa. Tudo parece sem sentido quando não estamos na presença do amado. Sem sua presença nada tem graça, nem razão de ser. É o momento mágico que bem parece com a magia da simbiose entre a mãe e seu bebê.
Quase temos vontade de entrar no corpo do outro, e dois fazerem apenas Um, como no princípio eram mãe e filho. Um para quem a realidade pouco importa. Um para que não haja a tristeza da separação. E nas mãos entrelaçadas andando pelas calçadas, nos abraços que não se findam, no toque dos lábios, e no ato sexual, somos por alguns instantes este Um. Somos um a extensão do outro.
A história e os amigos gritam nos dizendo que esta paixão, êxtase de paixão, tende a não seguir adiante; tende a caminhar para o fim, para a triste desilusão do desencontro. Porém, surdos e cegos para tudo e para todos recusamo-nos a ouvi-los. Pouco importa a história dos outros, as desilusões dos outros. Resta-nos a certeza de que nossa história será outra, terá final de novela, sempre feliz. Resta-nos a certeza de que o amor nasceu em nós e ali permanecerá. Seremos o primeiro casal a provar que a realidade da vida e a realidade do desejo não irá nos a abalar.
Resta-nos, por fim, a prova do tempo... e como diz o poeta: que seja eterno enquanto dure.
quinta-feira, 13 de novembro de 2003
Me diga agora
Me diga agora
Como devo viver
Já não posso saber
O que faço de mim
Me diga agora
O que posso te dar
Como te encantar
Por que foges assim
Me diga agora
Como o amor nasceu
O que aconteceu
Pra eu amar enfim
Me diga agora
Teu amor não morreu
Talvez adormeceu
Pode ser que sim
Me diga agora
Me diga enfim
Me diga sim
O que faço de mim
Como devo viver
Já não posso saber
O que faço de mim
Me diga agora
O que posso te dar
Como te encantar
Por que foges assim
Me diga agora
Como o amor nasceu
O que aconteceu
Pra eu amar enfim
Me diga agora
Teu amor não morreu
Talvez adormeceu
Pode ser que sim
Me diga agora
Me diga enfim
Me diga sim
O que faço de mim
terça-feira, 28 de outubro de 2003
O amor
Não é difícil percebermos que o tema amor tem uma enorme prevalência sobre o nosso imaginário. Em nossa cultura, associamos a idéia de uma vida feliz a um grande e forte relacionamento amoroso; imaginamos que sem isso é impossível alcançar a felicidade. Existe até uma música de Tom Jobim que diz “Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”.
É com freqüência que atribuímos ao amor o sentido da vida. Pensamos que a vida só vale a pena se tivermos alguém que nos acompanhe, de preferência para a vida toda; alguém com quem possamos dividir as alegrias, conquistas, sucessos, e também as tristezas, fracassos e medos. Alguém para rir e chorar; para estar conosco na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza... Até que a morte nos separe...
Mas se associamos a idéia de uma vida feliz a um bom encontro amoroso, não há nada, ou há poucas coisas, que nos faça mais infeliz, que nos faça sentir a mais profunda dor, ou, até mesmo, que nos faça sentir absolutamente fracassados, do que uma desilusão amorosa, ou o final de um relacionamento quando ainda amamos e mesmo quando já não amamos mais.
E por que o amor faz sofrer tanto?
É o que esperamos do amor a fonte de todo o sofrimento. Quando nos envolvemos amorosamente, nasce em nós a esperança de que este outro venha completar aquilo que nos falta para sermos felizes e satisfeitos. Assim como também nos vem a idéia de que este outro (o amado) precisa de nós para ser feliz e satisfeito. Ele é o que me falta e eu sou o que falta a ele! Esta é idéia que a maioria de nós tem de uma relação amorosa.
Só que esta esperança de completude que o amor nos promete nunca se cumpre. O outro não é exatamente o que falta em mim, ora ele se excede, ora falta, assim como eu a ele. Nós não nos completamos, e continuamos insatisfeitos, o que traz grande desilusão, frustração, e por conseqüência, o sofrimento. Sofremos, porque por mais que tentamos, pedimos, imploramos para o amado “simplesmente” adaptar-se aos nossos sonhos de completude, ele nunca se molda ao que nos falta, deixando-nos permanentemente com o desejo insatisfeito.
E enquanto continuarmos com a idéia de que vamos encontrar uma metade que nos complete, com a idéia de que dois podem fazer um, com a crença no mito da alma gêmea, dificilmente iremos encontrar a felicidade no amor.
É com freqüência que atribuímos ao amor o sentido da vida. Pensamos que a vida só vale a pena se tivermos alguém que nos acompanhe, de preferência para a vida toda; alguém com quem possamos dividir as alegrias, conquistas, sucessos, e também as tristezas, fracassos e medos. Alguém para rir e chorar; para estar conosco na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza... Até que a morte nos separe...
Mas se associamos a idéia de uma vida feliz a um bom encontro amoroso, não há nada, ou há poucas coisas, que nos faça mais infeliz, que nos faça sentir a mais profunda dor, ou, até mesmo, que nos faça sentir absolutamente fracassados, do que uma desilusão amorosa, ou o final de um relacionamento quando ainda amamos e mesmo quando já não amamos mais.
E por que o amor faz sofrer tanto?
É o que esperamos do amor a fonte de todo o sofrimento. Quando nos envolvemos amorosamente, nasce em nós a esperança de que este outro venha completar aquilo que nos falta para sermos felizes e satisfeitos. Assim como também nos vem a idéia de que este outro (o amado) precisa de nós para ser feliz e satisfeito. Ele é o que me falta e eu sou o que falta a ele! Esta é idéia que a maioria de nós tem de uma relação amorosa.
Só que esta esperança de completude que o amor nos promete nunca se cumpre. O outro não é exatamente o que falta em mim, ora ele se excede, ora falta, assim como eu a ele. Nós não nos completamos, e continuamos insatisfeitos, o que traz grande desilusão, frustração, e por conseqüência, o sofrimento. Sofremos, porque por mais que tentamos, pedimos, imploramos para o amado “simplesmente” adaptar-se aos nossos sonhos de completude, ele nunca se molda ao que nos falta, deixando-nos permanentemente com o desejo insatisfeito.
E enquanto continuarmos com a idéia de que vamos encontrar uma metade que nos complete, com a idéia de que dois podem fazer um, com a crença no mito da alma gêmea, dificilmente iremos encontrar a felicidade no amor.
segunda-feira, 27 de outubro de 2003
Sobre as dores
Num brilhante texto de seu livro de crônicas O amor que acende a lua, o psicanalista e educador Rubem Alves fala de dores. Como ele mesmo diz, existem duas categorias de dores: a dor-de-idéia e a dor-de-coisa.
Das dores-de-coisas é fácil de falar e muitas vezes de resolver. Dores-de-coisas são resolvidas pragmaticamente, tecnicamente. Por exemplo, quando temos dor de dente, vamos ao dentista e ele nos diz o que fazer: tratamento de canal, restauração, ou mesmo arrancar o dente, se for o caso; quando temos uma dor de estômago, vamos ao médico especialista que nos faz uma endoscopia e vê se temos uma gastrite ou até mesmo uma úlcera, indica-nos o medicamento apropriado e esperamos sermos curados; quando num acidente quebramos uma perna, vamos ao hospital e com algum mecanismo prático, o especialista nos concerta a perna, e assim por diante, dor-de-coisa se cura com coisa, de maneira prática e de preferência, científica. Sabemos que nem sempre esse pragmatismo funciona, às vezes o tratamento de canal não funciona, o estômago continua a doer apesar do medicamento, a perna não volta a funcionar tão bem quanto antes, mas essa é uma outra questão.
Outra categoria de dor é a dor-de-idéia. A dor-de-idéia dói bastante, às vezes dói mais que dor-de-coisa, e dói também porque não sabemos exatamente onde ela se localiza. Muitas vezes pensamos que a dor-de-idéia dói no peito, sentimos o coração apertado, parecendo que tem uma batata presa dentro dele. Mas quais são as dores-de-idéia? A idéia de que podemos perder o emprego dói, a idéia de que o filho pode morrer dói; a idéia do pecado e da culpa dói, a idéia de perder a pessoa que amamos também dói. E além da dor no peito, a dor-de-idéia pode causar insônia, ansiedade, pânico, como também pode causar outras dores-de-coisas, como diarréia, dor de cabeça, enxaqueca, pneumonia, alergia...
E se dor-de-coisa se trata com coisa, com que se trata a dor-de-idéia? Segundo Rubem Alves, existem dois grupos que pensam de forma distinta o tratamento da dor-de-idéia: No primeiro grupo estão os que pensam que dor-de-idéia deve ser tratada com uma coisa que não é idéia: chá de camomila, refresco de maracujá, bebidas alcóolicas, cigarros, Florais de Bach ou a numerosa lista da farmacologia psiquiátrica: antidepressivos, tranquilizantes, estimulantes... Isto tudo é coisa, coisa para tratar a dor-de-idéia.
O segundo grupo pensa diferente. Pensa que dor-de-idéia se trata com idéia. Esta é a idéia da psicanálise, que, sem desmerecer a importância das coisas como auxílio no tratamento da dor de idéia, pensa que dor-de-idéia só se cura mesmo é com idéia: através de uma “conversa curante”, na qual as idéias que fabricam as dores possam arranjar outro sentido, bem como outra forma de se manifestar que não seja através da dor.
Das dores-de-coisas é fácil de falar e muitas vezes de resolver. Dores-de-coisas são resolvidas pragmaticamente, tecnicamente. Por exemplo, quando temos dor de dente, vamos ao dentista e ele nos diz o que fazer: tratamento de canal, restauração, ou mesmo arrancar o dente, se for o caso; quando temos uma dor de estômago, vamos ao médico especialista que nos faz uma endoscopia e vê se temos uma gastrite ou até mesmo uma úlcera, indica-nos o medicamento apropriado e esperamos sermos curados; quando num acidente quebramos uma perna, vamos ao hospital e com algum mecanismo prático, o especialista nos concerta a perna, e assim por diante, dor-de-coisa se cura com coisa, de maneira prática e de preferência, científica. Sabemos que nem sempre esse pragmatismo funciona, às vezes o tratamento de canal não funciona, o estômago continua a doer apesar do medicamento, a perna não volta a funcionar tão bem quanto antes, mas essa é uma outra questão.
Outra categoria de dor é a dor-de-idéia. A dor-de-idéia dói bastante, às vezes dói mais que dor-de-coisa, e dói também porque não sabemos exatamente onde ela se localiza. Muitas vezes pensamos que a dor-de-idéia dói no peito, sentimos o coração apertado, parecendo que tem uma batata presa dentro dele. Mas quais são as dores-de-idéia? A idéia de que podemos perder o emprego dói, a idéia de que o filho pode morrer dói; a idéia do pecado e da culpa dói, a idéia de perder a pessoa que amamos também dói. E além da dor no peito, a dor-de-idéia pode causar insônia, ansiedade, pânico, como também pode causar outras dores-de-coisas, como diarréia, dor de cabeça, enxaqueca, pneumonia, alergia...
E se dor-de-coisa se trata com coisa, com que se trata a dor-de-idéia? Segundo Rubem Alves, existem dois grupos que pensam de forma distinta o tratamento da dor-de-idéia: No primeiro grupo estão os que pensam que dor-de-idéia deve ser tratada com uma coisa que não é idéia: chá de camomila, refresco de maracujá, bebidas alcóolicas, cigarros, Florais de Bach ou a numerosa lista da farmacologia psiquiátrica: antidepressivos, tranquilizantes, estimulantes... Isto tudo é coisa, coisa para tratar a dor-de-idéia.
O segundo grupo pensa diferente. Pensa que dor-de-idéia se trata com idéia. Esta é a idéia da psicanálise, que, sem desmerecer a importância das coisas como auxílio no tratamento da dor de idéia, pensa que dor-de-idéia só se cura mesmo é com idéia: através de uma “conversa curante”, na qual as idéias que fabricam as dores possam arranjar outro sentido, bem como outra forma de se manifestar que não seja através da dor.
O mito do amor materno
“Meu filho é meu maior tesouro”; “amo meu filho mais do que tudo no mundo”; “se pudesse, tiraria a dor de meu filho e colocaria em mim”; “renuncio a minha felicidade pela felicidade de meu filho”. Estas são frases tipicamente maternas, e muito valorizados em nossa época contemporânea.
É comum acreditarmos que o amor materno é inerente às mulheres; pensamos que este sentimento ocorrerá naturalmente em uma mulher saudável. Por serem capazes de ter filhos, supomos que, naturalmente, todas as mulheres desejam ser mães, ao ponto de olharmos com piedade para as que não o tem e com mal olhos para as que não querem tê-los, considerando-as portadoras de algum transtorno psicológico. Ideologicamente, na descrição da “natureza feminina”, estão implicadas todas as características da “boa mãe”: dócil, servil, delicada, resignada.
Mas a verdade é que este sentimento é bastante novo. A mãe que hoje conhecemos, amorosa e dedicada, começou a ser fabricada no fim do século XVIII. Houve aí uma revolução no que se refere a idéia da maternidade, na qual sua imagem, seu papel e sua importância modificaram-se de forma radical.
E se se modificou o ideal materno, como era antes, então?
Antes não havia todo este apego afetuoso. Quando as crianças nasciam, eram imediatamente mandadas para as amas de leite, com as quais ficavam, no mínimo, até os cinco anos de idade, sem que, a maioria das vezes, a mãe tivesse notícias delas. Não era socialmente bem vista a mãe que amamentava e cuidava dos filhos. A mortalidade infantil era muito numerosa. Na verdade, a maioria das crianças morriam antes de voltar para a casa dos pais. Já na viagem para a casa da ama, a vida de muitas era interrompida: viajavam amontoadas em carroças mal cobertas. Se resistissem a isto, ainda teriam que passar pela desnutrição, grande falta de higiene, e a contaminação pelas doenças venéreas de suas amas através da amamentação. Quando mortas eram enviadas para a família de origem, nas quais as mães nem sequer sentiam tristeza, quanto menos a culpa.
Mas não sejamos ingênuos de pensar que as mudanças ocorreram apenas a fim de favorecer as crianças, que parece certo terem se beneficiado bastante delas. A verdade é que estas modificações foram impostas muito mais pelas condições econômicas: com o surgimento da era industrial, era preciso povoar a cidade para aumentar a mão de obra trabalhadora, sendo assim, tinham que se cuidar melhor das crianças para que a taxa de mortalidade não fosse tal alta como era a até então. Diderot, em 1770, diz: “Um estado só é poderoso na medida em que é povoado... em que os braços que manufaturam e os que defendem são mais numerosos”. Assim induziu-se fervorosamente às mães a amar e a cuidar dos filhos.
Até que hoje acreditamos piamente na idéia da naturalidade do amor materno, e a pressão psicológica e ideológica é tanta, que não é raro as mulheres se convencerem que realmente desejam ser mães, mesmo sem de fato desejarem. Aí, resta uma grande frustração e culpa, originando, com freqüência, a infelicidade e, mais tarde, a neurose de muitas crianças e de si mesmas.
É comum acreditarmos que o amor materno é inerente às mulheres; pensamos que este sentimento ocorrerá naturalmente em uma mulher saudável. Por serem capazes de ter filhos, supomos que, naturalmente, todas as mulheres desejam ser mães, ao ponto de olharmos com piedade para as que não o tem e com mal olhos para as que não querem tê-los, considerando-as portadoras de algum transtorno psicológico. Ideologicamente, na descrição da “natureza feminina”, estão implicadas todas as características da “boa mãe”: dócil, servil, delicada, resignada.
Mas a verdade é que este sentimento é bastante novo. A mãe que hoje conhecemos, amorosa e dedicada, começou a ser fabricada no fim do século XVIII. Houve aí uma revolução no que se refere a idéia da maternidade, na qual sua imagem, seu papel e sua importância modificaram-se de forma radical.
E se se modificou o ideal materno, como era antes, então?
Antes não havia todo este apego afetuoso. Quando as crianças nasciam, eram imediatamente mandadas para as amas de leite, com as quais ficavam, no mínimo, até os cinco anos de idade, sem que, a maioria das vezes, a mãe tivesse notícias delas. Não era socialmente bem vista a mãe que amamentava e cuidava dos filhos. A mortalidade infantil era muito numerosa. Na verdade, a maioria das crianças morriam antes de voltar para a casa dos pais. Já na viagem para a casa da ama, a vida de muitas era interrompida: viajavam amontoadas em carroças mal cobertas. Se resistissem a isto, ainda teriam que passar pela desnutrição, grande falta de higiene, e a contaminação pelas doenças venéreas de suas amas através da amamentação. Quando mortas eram enviadas para a família de origem, nas quais as mães nem sequer sentiam tristeza, quanto menos a culpa.
Mas não sejamos ingênuos de pensar que as mudanças ocorreram apenas a fim de favorecer as crianças, que parece certo terem se beneficiado bastante delas. A verdade é que estas modificações foram impostas muito mais pelas condições econômicas: com o surgimento da era industrial, era preciso povoar a cidade para aumentar a mão de obra trabalhadora, sendo assim, tinham que se cuidar melhor das crianças para que a taxa de mortalidade não fosse tal alta como era a até então. Diderot, em 1770, diz: “Um estado só é poderoso na medida em que é povoado... em que os braços que manufaturam e os que defendem são mais numerosos”. Assim induziu-se fervorosamente às mães a amar e a cuidar dos filhos.
Até que hoje acreditamos piamente na idéia da naturalidade do amor materno, e a pressão psicológica e ideológica é tanta, que não é raro as mulheres se convencerem que realmente desejam ser mães, mesmo sem de fato desejarem. Aí, resta uma grande frustração e culpa, originando, com freqüência, a infelicidade e, mais tarde, a neurose de muitas crianças e de si mesmas.
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