terça-feira, 2 de março de 2010
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Vertigem
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Romance
No dia do menino Jesus ela queria todos os seus meninos e meninas reunidos. Sim, chega uma hora em que se exige o cumprimento deste direito. Direito que todos se esforcem, deixem suas particularidades e venham cumprir um capricho de si. Não, não é um outro qualquer, é um outro que acendeu a fagulha que fez brilhar a vida, é um outro que sustenta com um laço, já quase frouxo, isto que chamamos família. Ela assim o fez, com sua agulha afiada e pedaços de linha arrancados da própria roupa entremeou o pano que vestiu por todos estes anos os membros deste corpo cada vez mais despedaçado de nome família.
E em sua homenagem, neste dia natalino todos se encontraram: os filhos, os filhos dos filhos, os filhos dos filhos dos filhos, e aqueles que faziam parceria com os todos estes filhos. Outros que não eram filhos e nem parceiros dos filhos também marcaram presença. Ninguém era capaz de desdenhar sua decisão. Se ela queria a presença de todos, certamente lá todos estariam. Ela já quis outras coisas, mais fáceis ou mais difíceis, tinha-se a impressão que não era possível recusar. Pedia com a voz, com a mão e quase até o fim com o olhar. Lá no fim, supostamente, este último não teria mais função, mas ao contrário disto, a função do órgão que não funciona era a de mostrar que se pode prescindir dele. Isto ela mostrou, fez ver até o fim.
Até o fim sustentou este laço de família e para isso pagou o preço de não ver, era o que sabia. A família valia o preço de não ver e cada um teria que pagar este preço para pertencer à família. Acabar sem ver, esta foi a maldição.
Ela, moça faceira, com as duas pontas do vestido amarradas na altura do joelho, segurava com as mãos calejadas a velha enxada ruim de corte. Colhia a mandioca que mais tarde mataria a fome dela e dos irmãos. Escolha dela este destino, porque o moço rico do estrangeiro lhe propôs uma vida de mãos macias. Nunca soube responder o porquê de não partir, mas gostava de contar a história com a alegria que se tem quando pensamos que se tivéssemos feito a outra escolha aí sim a vida teria sido boa, plena, repleta de felicidade. Às vezes é uma felicidade acreditar que em algum canto do mundo a felicidade nos esperaria se escolhêssemos de forma correta. Mas ela não se queixava, pelo menos não dela mesmo. Creio que ela não errava. Toda sua escolha era correta. Pode ser muito sábio ver a vida desta forma. Também pode ser uma escravidão.
Lá estou eu em reflexões no momento que devia apenas descrever um fato, mas já sou avisada e a quem me acompanhar já aviso: isto para mim é impossível. Teremos que colher a história dentre as palavras. Espera-se que a terra esteja fofa.
Ela lá de vestido amarrado entre as pernas, ele de terno de linho branco olhava a moça firmemente, transmitia naquele olhar uma decisão. Ela não lhe diria não, não recusaria esta convicção. É difícil não ceder a uma convicção. Tomada pelo susto de o ver ali, ele já não lhe era mais estranho desde as últimas três missas de domingo. Mesmo que não fosse do tipo de se entregar a convicções alheias, a daquele olhar atravessava-lhe a carne impedindo qualquer pensamento. Sim, ele a tomou, sim, ela se entregou, sem palavras, sem resistências, sem promessas. Na primeira vez ele a quis e na primeira vez ela se deu. Somente com a convicção de que aquilo assim deveria ser. E neste ato começou a se costurar a trama que se multiplicaria em tecidos de vida, de si e de outros.
Sob o olhar convicto que fez nascer esta trama lançou-se também sua tragédia expressa pela boca de outro, ao melhor, de outra, de uma mulher, destas que das bocas saem as palavras-verdades que se encarnam no corpo. Uma mulher que também se sentira olhada por aquele mesmo olhar pleno de convicção, no momento em que esse voltou-se para outra destituindo-a da existência, lançou-se ao chão do desespero e como uma Medeia ainda sem filhos, furou os olhos ainda não nascidos dos que desta outra nasceriam e dos dois que os fariam nascer. Disse-lhes: – Acabarão todos sem ver.
Os dois, a de mãos calejadas e o de terno de linho branco seguiram sem escolha, aceitando este desígnio. Acabariam sem ver.
Neste dia de natal faz sol, um sol daqueles que nos convida à alegria, ao otimismo, a ver os fatos com certa poesia, a colocar mil sentidos de valor em cada movimento. Família quase toda já reunida. Chegavam ao encontro natalino mais uns e com a mais absoluta educação, destas que se aprende com a terra, quando com humildade espera-se o nascer do alimento. Tiravam o chapéu da cabeça, com certa solenidade levavam-no à altura do estômago, cumprimentavam aquela que os queria reunidos e os outros que também vieram lhe fazer esta vontade.
Uns ficavam na sala em volta dela, ajudando a receber os que por último iam chegando, outros espalhados pelo resto da casa. Eu me sentei por tempos que nunca lembrarei quanto na cadeira em que ela passava a maior parte de seu tempo. Queria ver com meus próprio olhos o que ela, sentada ali, via com os olhos que não podiam mais ver. Depois me dentei em sua cama para sentir o sono que ela dormia. A casa estava repleta de uns e outros, de diversas idades. Os ruídos iam ficando calmos e distantes quando sonhei em meu próprio sono.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
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Pedaços de carne despedaçados
Semblantes frágeis que transparecem o nada
Semblantes mal-feitos, sem desejo
Uma rede mal-entrelaçada, com fios soltos
Deixando entrever a garganta escancarada
O buraco negro que suga o corpo e a alma
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Letra
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
A voz
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
A língua
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
objeto olhar
Fobia e fetiche no mesmo objeto
Cegueira? Olho biônico...
Visão raio-x? Cabra cega
Medusa – da cabeça de cobra
Que se cobiça a olhar
Ela provoca...
E petrifica
Divide o sujeito entre o desejo de olhar e o horror ao olhar
Ah, Saramago
Sara Mago, sara!
Ensaio sobre a cegueira
Não me poupaste de ver sozinha todos aqueles horrores. Só eu vi. Vi tudo, todo o horror. O horror na cegueira
Ah, Saramago
Sara Mago, sara!
Todos os Nomes
Mas foi apenas Um que colocou na rua e na vida o tal cartorário
Foi para a rua espiar. Não sabe ele que ele é que estava sendo espiado – por mim. Vi cada passo de seu percurso pelo gozo de ir atrás do Nome.
É, o nome era morto
Ou, a coisa morta, restou o Nome
Ex(s)piação... Gozo?
domingo, 17 de janeiro de 2010
O alimento
domingo, 10 de janeiro de 2010
O divertimento
sábado, 9 de janeiro de 2010
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Atravessamento da angústia e satisfação
“a ausência de sentido é perfeitamente compatível com a coerência” M. P. S. Leite
Diante do enigma primeiro a respeito do desejo do Outro, ou, como nomeamos, Desejo da Mãe, a criança constrói sua resposta, arruma seu sentido: o que será denominado Nome do Pai. A metáfora paterna daquilo que surgiu como o que causou a primeira fratura narcísica no ser, apazigua o sujeito com a descoberta da fórmula que supostamente o restauraria ao lugar do ideal. O Nome do Pai vem então como o substituto daquilo que tirou da criança seu lugar da completude com o outro. Diante do enigma: “Che vuoi?” – “Que queres?”, o sujeito articula uma resposta. O que falta ao Outro o sujeito o nomeia: é o Nome do Pai.
Porém, esta nomeação que dirige o sujeito, fundamenta seu ser na medida em que lhe confere uma identificação, mostra-se como falha. Em algum momento, este nome que aparecia como garantia e verdade, torna-se inconsistente.
Quando este sentido nomeado não se sustenta diante dos fatos, do Real, vemos o aparecimento da angústia. O “Che voi?” retorna com o aspecto de puro estranho, sem respostas e sem sentido. “A angústia (...) está ligada a tudo o que pode aparecer no lugar (-φ) (...) Esse fenômeno é o da Unheimlichkeit.”[1]
Dizemos que a angústia é um afeto que não engana. O que quer dizer que é o confronto direto do sujeito com o Real, sem velamentos. É o confronto direto com este lugar em que nada falta, que aparece como Coisa, grandiosa, desmedida, sem contornos, “certeza assustadora”[2]. Vazio consistente, nada, puro sem-sentido, devorador do sujeito é este objeto que na angústia aparece como estranho.
Qual é o tratamento para a angústia? Em psicanálise falamos de um atravessamento da angústia. Do que se trata atravessar a angústia? Atravessamento da angústia seria o caminho que o sujeito percorre na sua relação com o objeto, objeto como estranho, para o objeto como causa de desejo? O objeto estranho é o mesmo objeto causa de desejo? Em que se diferenciam? Como se pode fazer do objeto que aparece como estranho o objeto que causa o desejo? Estas são as questões que norteiam minha pesquisa neste cartel.
Iniciemos pelo tema do objeto a. “O objeto a não é um significante...”[3] “O objeto a não é um ser, ele é um vazio. O que chamamos objeto a é a inadequação da demanda.”[4] Isto é, o que da demanda não diz respeito ao desejo. Do que o Nome do Pai não corresponde ao Desejo da Mãe. É esta sobra, este vácuo existente, este excesso não nomeável. Este buraco, este lugar onde um não corresponde ao outro é o objeto a. Por isto ele não tem nome, por isso não há um objeto a como significante. a é “o objeto que funciona como resto da dialética do sujeito com o Outro”[5]
Se o objeto a tivesse uma existência significante, somado ao Nome do Pai restauraria o sujeito como não barrado, como eu ideal. O simbólico seria sem furo, corresponderia ao Real. Seria o fim da castração. Seria então a mortificação do desejo. O objeto a é causa de desejo porque não é significante, porque é furo, nada, vazio.
Furo, nada, vazio, ausência da falta. Quando aparece ao sujeito, quando a fantasia e os nomes que serviam para apaziguar a relação com o Real não se sustentam produz no sujeito o encontro com o que é sem palavras. Angústia é o nome que podemos dar para isto. Aqui este objeto de puro nada aparece ao sujeito como estranho. No sentido freudiano, o que há de mais estranho e mais familiar. Angústia constituída que paralisa o sujeito, que diante do sem limites; da ausência da falta, do furo onde se insere o sujeito, não lhe dá saída, não lhe dá palavras.
Porém Lacan nos adverte que a angústia é o caminho que “revivifica toda a dialética do desejo, (...) é o único que nos permite introduzir uma nova clareza quanto à função do objeto em relação ao desejo”[6].
O que pode tirar o sujeito da angústia e levá-lo a satisfação? Pensamos em duas saídas para angústia:
1) satisfação pelo tamponamento da falta, pela via dos objetos suplentes (mais-de-gozar).
No capitalismo os bens de consumo e as prestações de serviço se propõem a estabelecer a satisfação do indivíduo. Através das múltiplas possibilidades do uso de substâncias tóxicas, das ilícitas às da farmácia, se oferece a possibilidade de o sujeito sair do que lhe faz sofrer. No consumo dos objetos do mercado se encontra incessantemente objetos que obturam o que falta. Também podemos falar no encontro com o objeto amoroso. São encontros possíveis com que supostamente restauraria no sujeito um estado de completude e garantia. Dizemos que esta é a satisfação narcísica pela via da completude pelo encontro com o objeto. Porém, este objeto que promete o tamponamento do vazio que aparece como estranho ao sujeito, joga-lhe no abismo sem fim do mais e mais objetos, das outras e outras drogas e devastamento no campo amoroso. E assim, ao invés de apaziguar a dor, o que é possível por alguns instantes, abre ainda mais este furo, corrói a fratura íntima, e lança o sujeito não só no estado anterior da angústia, mas também no estado de impotência. Se dizemos que a angústia é um afeto que não engana, podemos dizer que a satisfação possibilitada por estas vias é um afeto que certamente engana.
2) satisfação pelo consentimento do furo e reconfiguração do objeto para causa de desejo.
Na psicanálise lacaniana, a idéia de fim de análise se remete à satisfação do sujeito. Logicamente não se refere a mesma satisfação que impera no discurso capitalista.
Lacan no texto prefácio do Seminário XI, diz que no final da análise há satisfação. “o único término da análise é a satisfação que marca o final da análise”[7]. A satisfação daquele que foi analisante. De que satisfação se trata? A pulsão se satisfaz por inteiro no fim de uma análise? Ou o sujeito se satisfaz com a parcialidade da satisfação da pulsão? Ou já que a pulsão sempre se satisfaz, qual é a diferença em relação à satisfação obtida no fim de uma análise?
Uma análise se concebe na esperança ilusória de cercar o Real com o Simbólico. E com o Simbólico se faz “florir o imaginário”[8]. O desejo do analista, com sua função simbólica faz surgir o inconsciente transferencial. E como Outro que se corporifica, faz acontecer a questão: O que quer o analista? Isto lança o sujeito ao querer saber, à construção de saber, à busca da verdade última que diga sobre seu ser no mundo. “Numa análise trata-se de reconduzir o sujeito aos elementos absolutos de sua existência contingente”[9]. Neste sentido, uma análise é uma experiência que consiste em construir uma ficção. Porém, em contrapartida, também é uma experiência que consiste em desfazer essa ficção. “A psicanálise não é o triunfo da ficção. Nela a ficção é posta à prova de sua impotência em resolver a opacidade do Real”[10]. Do aparecimento da verdade como mentirosa, acontece o rearranjo do sujeito ante suas identificações, queda do Ideal – esvaziamento superegóico. Em consequência, há um alargamento das possibilidades ante a contingência. É possível, assim, obter a satisfação pelo consentimento com a verdade como mentirosa. Porém, esta satisfação residiria em puro cinismo se não houvesse a possibilidade de cercar no nível do sujeito o que lhe aparece como singular.
No esvaziamento da cadeia significante, sobra o “initium subjetivo (...) só há aparecimento do sujeito como tal a partir da introdução primária de um significante, e do significante mais simples, aquele que é chamado de traço unário”[11].
O traço unário como anterior ao sujeito é o que possibilitaria nomear a borda do objeto que sem ela aparece como estranho e desmedido? A hipótese aqui levantada é que o objeto como causa é aquele em que o sujeito pode localizar a borda que contorna o nada, o vazio do objeto. A borda possibilita a imaginarização e também a simbolização deste objeto, e assim, amortiza o caráter aterrorizante do completo sem-sentido, ilimitado. A nomeação do objeto é a nomeação do que faz borda, já que o objeto mesmo não é significante. Assim, esta nomeação é o que possibilitaria a passagem do estranho para causa.
Na medida em que com o percurso de uma análise o sujeito depara-se com esta satisfação em relação ao não-sabido, ao sem-sentido, à noção de impossível, não poderíamos dizer que a satisfação que resulta do fim de uma análise é também, como a angústia, um afeto que não engana? Isto é, se a angústia é um afeto que não engana porque coloca o Sujeito em relação direta com o objeto (como estranho), esta satisfação obtida através de uma análise, a qual acontece pelo encontro do Sujeito com o objeto (como causa) não seria também um afeto que não engana?
[1] Lacan, J. O Seminário: livro 10 – A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 57.
[2] Lacan, J. O Seminário: livro 10 – A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 88.
[3] Miller, J.A. Orientação Lacaniana – Coisas de fineza
[4] Miller, J.A. Orientação Lacaniana – Coisas de fineza
[5] Lacan, J. O Seminário: livro 10 – A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 252.
[6] Idem.
[7] Miller, J.A. Orientação Lacaniana – Coisas de fineza
[8] Idem. Aula VII, de 14 de janeiro de 2009.
[9] Idem. Aula V, de 10 de dezembro de 2008.
[10] Idem. Aula VIII, de 21 de janeiro de 2009.
[11] Lacan. Op. cit., p. 31.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Elogio ao Colégio Dehon
Depois de muito pesquisar sobre as escolas de nossa cidade, apostei no Colégio Dehon, inicialmente pela serenidade e amabilidade (sim, as duas coisas podem estar juntas) com que fomos recebidos, pela indicação de amigos e também porque no dia em que conheceu a escola, meu filho demonstrou muita intimidade com o espaço, daquelas que sentimos quando já estamos há anos no lugar.
Escolha tomada, alívio sentido. Agora vamos ver o que acontece.
Já sabia, pela reunião em que fui conhecer a escola, e pelas histórias contadas por amigos com filhos matriculados lá, que o Colégio trabalha com “projetos”. Palavra da moda no meio pedagógico. Hoje é chic e moderno dizer que uma escola trabalha com projetos. Porém mais do que chic e moderno, trabalhar com projetos numa escola pode ser uma forma de mostrar a consistência de uma ideologia, e trabalhar honestamente para implantá-la na vida das pessoas que estão ao seu redor.
O Colégio Dehon trabalha com projetos e o de 2009, o ano em que meu filho foi matriculado nesta escola, recebe o nome de “A beleza de olhar o mundo”.
As esclarecedoras e detalhadas palavras das pessoas responsáveis por tal projeto, me fizeram concluir que A beleza de olhar o mundo é um saber-fazer com o mundo em que vivemos; é estar com os pés na realidade de nosso tempo e poder fazer um bom uso disto.
E de que mundo se trata, este dos nossos tempos? É o mundo da queda dos ideais, das autoridades, das garantias. É o mundo das experiências, das múltiplas possibilidades. É o mundo da fugacidade das verdades, dos valores e também das sensações e das escolhas. O que ontem era, hoje já não é mais.
Muitas vezes tendemos a olhar o mundo de hoje com um arrepio na espinha, um certo horror, um sentimento de calamidade. Tendemos a olhar para este mundo com o ar fóbico que em geral dirigimos para aquilo que não conhecemos.
Sim, são os fatos: os ideais estão em absoluta decadência; não se acredita mais na autoridade; as certezas são muito provisórias. Estes elementos eram até então aqueles que subsidiaram a educação das crianças: os ideais, a convicção e a fé na autoridade. No lugar disto que se foi, vemos crescer no solo de nosso tempo, junto com o desprezo à autoridade, uma voracidade enlouquecedora por experimentar o mundo. Experimentar o mundo pode querer dizer consumir, abocanhar o mundo. E isso tem deixados os novos personagens deste mundo obesos de experiências, alucinados de experiências, endividados de experiências e até mortos de experiências. Isto é o que nos deixa fóbicos diante deste novo tempo. Fóbicos diante do fato que nossos filhos crescem neste novo tempo em que os objetos de consumo estão no topo da importância em nossas vidas.
Estes objetos que são sempre obsoletos, ultrapassados, e que fazem com que vivamos muito mais na expectativa da nova experiência prometida, do que a que se pode sentir diante do que temos. Sim, o celular, o carro, a roupa que ainda não se tem, são sempre melhores, mais adequados. Sim, a droga que se experimenta na primeira vez, quando repetida não traz mais a mesma sensação, é preciso aumentar a dose.
O mundo em que vivemos é este, não é nenhum outro. O que passou ficou para trás. Se vivermos na nostalgia de outros tempos, ou se quisermos a todo o custo restaurar a antiga ordem, os antigos ideais, no mínimo ficaremos ainda mais distantes destes que nascem e que crescem neste mundo de hoje. Neste mundo das sensações, das experiências e dos objetos.
Podemos nos perguntar (e é justamente poder fazer isto que pode nos salvar do que nos horroriza nos tempos atuais): Como vamos viver neste novo mundo? Como vamos conduzir nossas vidas entre estes imperativos das sensações, das experiências e dos objetos? Temos algumas opções. Sempre as temos. Podemos querer abocanhar o mundo inteiro até que expludamos de tantas informações, comida, drogas, novas formas de se viver, sempre na esperança de uma próxima experiência que nos tire da tão humana insatisfação. Ou podemos olhar a beleza do mundo e valorizar a sensação das experiências que temos, sem a ilusão de que outros mais e mais objetos nos darão alguma garantia de plenitude; podemos nos entusiasmar com o que temos nas mãos, com os objetos que nos cercam, com os outros que nos cercam se não deixarmos nos enganar pela fugacidade do consumo e das experiências. Olhar a beleza do mundo também é ter relação com as sensações, com as experiências e com os objetos, só que de forma que nos permita viver mais tranquilamente, aproveitando, de fato, melhor a vida.
O alívio da aposta inicial me dá agora o entusiasmo e a alegria da convicção de estar compartilhando a educação do meu filho com quem está fazendo um bom uso do que temos em nosso tempo. Agradecimentos e elogios à equipe do Colégio Dehon!
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Sentir nada, sentir tudo
O tom de trivialidade e o diagnóstico simplificado à banalidade que se pode ler acima, seriam sem nenhuma relevância se não refletissem exatamente o que se passa em muitos lugares oferecidos para tratamento do mal-estar psíquico. Entre profissionais da saúde pública, repete-se, de maneira jocosa, que mais vantagem seria diluir na caixa d’água da cidade boas doses de fluoxetina e rivotril. Assim, se poderia tratar em longa escala este povo que em quase unanimidade se diz doente.
E que gente é essa, os que seriam supostamente beneficiados por fluoxetina e rivotril na torneira de sua casa? Não são os que tão distantes estão da tão sonhada felicidade? Daquele ponto de equilíbrio em que tudo, tudo deve funcionar bem, como os normais bem devem de ser? Quando é que vão se adequar à norma? A esta nova e moderna regra pela qual todo mundo tem que ser feliz?
É, neste momento de novos imperativos, felicidade é regra maior.
Poderíamos perguntar: – Mas como assim felicidade? O que é a tal da felicidade? Onde se encontra? Alguém já a viu por aí? Vende-se em supermercado?
Ao que alguma voz poderia responder: – Sim, vende-se sim! Em supermercado, pela internet, no morro, nas butiques de luxo, em vários lugares, mas principalmente na farmácia. E tem dois tipos básicos de felicidade, dá para escolher: podemos ter a felicidade de não sentir nada ou a felicidade de sentir tudo. Aí, fica ao gosto do freguês.
Esta mesma voz prosseguiria: – Ora, ora, por que sentir dor, tristeza, luto, se com um remedinho tudo se alivia? Sim, tristeza é doença em nosso tempo. E não querer aliviar é coisa de gente estranha, que se chama de corajosa, de sensível, de politizada, até de ética, mas na verdade mesmo, é esquisita. Masoquistas! Isto é o que são. Tanta indústria pesquisando o que alivia a dor de ter nascido e uns aí são do contra. É uma felicidade não sentir nada.
Nosso diálogo continuaria:
– Mas é possível mesmo não sentir nada, dor alguma?
– Sim, sim, é só aumentar a dose de vez enquanto, ou mudar o fabricante, e também, o negócio está sempre evoluindo, sempre coisa nova na prateleira.
– Mas é assim mesmo? E os tais efeitos colaterais? É tão fácil mesmo ser feliz?
– Efeitos colaterais? É... a maioria engorda um pouco, mas tudo bem, é só usar uma pílula de outra cor que emagrece. Bem, a cabeça também fica um tanto devagar, mas já dizem uns velhos sábios, quem pensa muito acaba enlouquecendo.
– E funciona bem para todo mundo?
– Ah, todo mundo, todo mundo, não. Uns aí não têm jeito, é o psicológico que atrapalha, aí paciência, nem Jesus agradou todo mundo.
A debilidade mental em troca de não sentir nada é uma versão da felicidade contemporânea. A indústria (ciência e mercado aliado) oferece uma ampla variedade de silenciadores do que é mais íntimo, que dizem, é o que faz sofrer. Amputa-se a dor e vai o sujeito junto. Algum preço tem que se pagar...
Há também uma outra felicidade, que é a de sentir tudo. Carpem diem! “Eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte”, é o que já dizia Saint-Preux, o protagonista da novela A nova Heloísa, de Rousseau, numa carta a sua noiva, quando vai para a cidade e descobre os novos tempos.
E já que tudo que é sólido se desmancha no ar[1], o hedonismo se marca como uma nova política do viver.
Este é o mundo das múltiplas possibilidades, da queda da perversão, já que quase tudo é permitido. O que vale é a experiência. E se oferta uma aparentemente mais incrível que a outra.
Sentir tudo é gozar, gozar, gozar, a marca feroz de um a pulsão de morte que se repete infinitamente numa avalanche de confrontos diretos com os objetos do tipo mais-de-gozar, que segundo já sabemos, ocupa um lugar de zênite em nosso tempo.
Já se foi o tempo dos projetos para o futuro, dos ideais, da preocupação mínima com “o que o outro vai pensar?”. E se esse outrinho não faz efeito algum, o Outro, aquele que, já fomos avisados, é barrado, desceu na escala de importância. O a passou a perna no A.
Neste último seminário de Orientação Lacaniana, Miller[2] nos faz recordar um discurso do profeta Zaratustra muito bonito e ilustrativo de nossas atuais preocupações:
“É tempo que o homem tenha um objetivo.
É tempo que o homem cultive o germe da sua mais elevada esperança.
O seu solo é ainda bastante rico, mas será pobre, e nele já não poderá medrar nenhuma árvore alta.
Ai, aproxima-se o tempo em que o homem já não lançará por sobre o homem a seta do seu ardente desejo e em que as cordas do seu arco já não poderão vibrar.
Eu vô-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.
Eu vô-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós.
Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já não pode desprezar a si mesmo.
Olhai! Eu vos mostro o último homem.
Que vem ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? – pergunta o último homem, revirando os olhos.
A terra tornar-se-á então menor, e sobre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga: o último homem é o que vive mais tempo.
‘Descobrimos o que é a felicidade’ – dizem os últimos homens, e piscam os olhos.”[3]
É da felicidade do tudo ou nada de que se trata a descoberta deste último homem descrito por Nietzsche. Desta que calando o caos de cada um, cala ao mesmo tempo o desejo, a possibilidade de amor e de criação.
E tem que ser assim radical: tudo ou nada? Não, há outras possibilidades. Uma delas é, nos termos lacanianos, o não-todo. Não-toda felicidade também é possível. Apesar de que o tempo corre de maneira desenfreada, atropelando os sujeitos com as promessas de totalidade e de gozo sem restrição, ainda se pode, de forma não-toda, marcar uma profunda diferença.
Sim, há outra possibilidade, aquela na qual o objeto muda seu estatuto. Deixa de ser o que se estampa ante aos olhos e aos outros sentidos como uma promessa da satisfação total e imediata, através dos outdoors, dos folhetins, dos receituários, dos experimentos, dos manuais científicos... Passa a ser outro, a própria fratura íntima do ser falante, que o instala no desejo, que lhe causa o desejo. Esta outra vertente do objeto possibilita a felicidade, não aquela das garantias totais, mas a que, sendo um sujeito, é possível.
“Aquellos que no retrocederem no les esta prometida la felicidad, pero si la alegria de hacer encontrado um truco para vivir mejor. Un saber a cerca de lo que causa el deseo nos otorga la posibilidad de eligir y de asumir sus efectos con todos sus consequencias.[1]”
[1] Vilma Cocoz. Notas sobre la actitud del psicoanalisis. In: : El libro Blanco del psicoanalisis: clínica y política. Barcelona: RBA Libros S.A. 2006, p. 105.
[1] Berman, Marshal. Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
[2] Miller, Jacques-Alain. Sétima aula do curso Orientação Lacaniana – 2007/2008. 23/01/2008.
[3] Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martins Claret, 2005, p. 28-29.
sábado, 13 de setembro de 2008
O cartel e a formação do analista
Mas, quando se trata de psicanálise, não poderíamos pensar em uma escola deste molde. Uma escola que forma para depois. Uma escola em que se pressupõe uma verdade, na qual os sujeitos podem se formar. Se numa escola psicanalítica, as pessoas estão em constante aprendizagem, não é para depois. Espera-se, nesta, que os sujeitos não se formem, ou não se sintam formados, a ponto de abandoná-la, como fazemos com as outras escolas. A formação em uma escola psicanalítica não tem fim, nunca chega à hora de se diplomar.
Mas por quê? Primeiro, porque já sabemos que a formação do analista nunca chega ao final. A formação é infinita. E segundo, porque a verdade, geralmente digno objeto de uma escola, não é, ou não pode ser, total numa escola psicanalítica. Esta escola nunca sabe o todo, nunca tem o saber absoluto. Mas apesar de saber que nunca poderá oferecer uma verdade totalizante, não cessa de se pôr à busca de mais saber. Porque quem, ou melhor, o que está em formação nesta escola, não são apenas seus membros ou quem ao redor dela se situa, mas sim a própria psicanálise. Se existe um aluno nesta escola que nunca se forma é a própria psicanálise. E é ela para a qual todas as atenções se dirigem, é para a formação dela que todos trabalham. É para que ela possa aprender a ser um digno instrumento para olhar e tratar o mal-estar da época presente é que se trabalha sem cessar.
Esta é a escola de psicanálise proposta por Lacan. Uma escola na qual o importante é o trabalho que cada um de seus participantes possa oferecer. Tendo o trabalho como centro da atenção dessa escola, Lacan, em 1964, cria o dispositivo do cartel. “Órgão de base da Escola”, “sede do trabalho da Escola”, como Lacan o nomeou, o cartel vai na contramão das estruturas burocráticas da instituição. É a porta sempre aberta da escola lacaniana. Entra quem quer trabalhar, aprender, começar ou continuar sua formação em psicanálise, ou apenas satisfazer alguma curiosidade temática.
Mas e o que é isto, o cartel? Esta palavra que em nosso vocabulário tem uma conotação ilícita, na psicanálise tem um significado específico.
O cartel se trata de um pequeno grupo de pessoas que se agrupam para estudar, um dos pilares da formação do analista (sabemos que Freud apontou um tripé necessário à realização no que diz respeito à formação do analista: estudo, análise e supervisão). Lacan sugeriu alguns pressupostos para o trabalho deste pequeno grupo: quatro pessoas mais uma se reúnem por um ou dois anos em torno de um tema de estudo. O mais um é não é apenas o cinco, tem a função de velar pelos efeitos internos do cartel, provocar sua elaboração, e também velar para que os efeitos de grupo, em geral causados pelo imaginário, não atrapalhem o seu andamento. Ele não é professor, nem coordenador. Pode-se dizer que é um líder, mais um líder debilitado. Ele é mais um na medida em que é mais um interessado no tema em questão. É esperado deste pequeno grupo chamado cartel que cada um dos membros possa chegar a um produto próprio. E no final, que estas pessoas possam apresentar suas produções individuais à comunidade analítica e em alguma medida causar-lhe um movimento. Ao final deste período de estudos e desta apresentação das produções à comunidade analítica, o grupo se dissolve. Seus membros agora novamente solitários podem formar outros cartéis a partir de novos temas de interesses com outros interessados no mesmo tema.
Há, sobretudo, neste grupo, um caráter anti-didático. Não há um mestre de prestígio que dite um ensino e alunos que o amem por seu saber. A cada um cabe a implicação de autorizar-se a pensar por conta própria. “Há aí a aposta de que entre a possível elaboração coletiva e a particularidade da enunciação de cada um, se avance um pouquinho no saber à custa da ignorância”.
Neste sentido, o cartel tem característica provocadora. Ele é a certeza que sempre o novo será oferecido. Ele é a possibilidade mais viva de fazer com que as verdades não se cristalizem, de fazer com que o estudo e a reflexão sobre a psicanálise estejam em constante movimento.
Assim, o dispositivo do cartel trás para a psicanálise uma novidade. O cartel trás consigo uma máxima, que é o fato de que o “saber que a psicanálise produz não está pronto, não está preparado, não se trata de um saber que é preciso aprender, não se trata de descobri-lo, trata-se de inventá-lo”.
Todas as pessoas que estudam psicanálise, sabem que a psicanálise tem uma teoria muito viva. Se os críticos dizem que a psicanálise é ultrapassada, que Freud a inventou num outro tempo, dizem isto certamente baseados na ignorância. Sabemos que o próprio Freud reinventou a psicanálise tantas vezes quanto os fatos lhe foram impostos. Freud não se deixava levar pelo narcisismo na medida em que mostrando a ignorância e revisando suas próprias idéias levava a psicanálise à atualidade por ele vivida. Lacan assim também o fez, reiventou a psicanálise para que pudesse ser um instrumento para tratar o mal-estar de sua época. É a isto que somos convocados: a todos os dias, diante dos novos pacientes, reinventarmos a psicanálise. Não com as garantias que equivocadamente pensamos encontrar no discurso do mestre, mas com a vivacidade de saber fazer com o que nos é apresentado.
O cartel é este lugar da formulação de novos saberes, aonde a ignorância é muito bem vinda, já que não é marcada pelos ranços das verdades convictas. Basta ter o desejo de saber, ainda que pequeno e não esperar pela resposta do mestre.
Poder abrir mão do mestre e também de ser o mestre é a convocação que se faz diante desta aposta de formulação de saber. E este não é um dos achados que alguém em sua formação como analista deva se deparar? Penso que esta é uma questão que torna o cartel um elemento indispensável na formação de um analista.
A respeito do cartel pode-se dizer que é um bom modo de não se estar sozinho, nesta função que nos impõe tanta solidão, que é a prática analítica. Sabemos que no trabalho analítico o analista está só, e que assim é preciso. Mas fora do consultório não se precisa estar só. Não é bom que o analista esteja só, mais ainda, é impossível!
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
do Nome-do-Pai a uma père-version
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!”[1]
Sabemos que o neurótico é aquele que precisa inventar o pai para dar conta de um gozo no corpo, para dar conta deste gozo que aparece como excessivo, imenso. Ante o irrepresentável que emudece, o neurótico é aquele que inventa um Nome. Pede ao pai um Nome. Pede ao pai que dê sentido, significação, àquilo que aparece como fora do campo das significações.
O que justamente acontece com o neurótico é que ele pode acreditar neste Nome dado que supostamente esconde isto que é sem controle, o real. E ele realmente acredita. Passa a usar esta nomeação como um escudo ante o incompreensível, ante a contingência. A esta nomeação, em psicanálise, nomeamos, entre outros nomes, como Nome-do-Pai. Este é o grande responsável por possibilitar ao sujeito o encontro com o outro, isto é, leva-o à possibilidade do laço social.
E o que é um pai? Em psicanálise, entendemos que um pai é aquele que separa a criança da mãe, de uma boa maneira, “quer ele queira ou não”. Assim, a palavra pai ocupa o lugar de função.[2] Lacan é aquele que “liberta o pai freudiano da situação concreta, familiar, em que aparentemente estava localizado. Invertem-se os dados: em vez de ‘O pai é a origem’, teremos ‘O que for, para um sujeito, a origem será o pai’”[3].
Nas palavras de Esthela Solano-Suarez, “o Nome-do-Pai, na psicanálise, é um instrumento para resolver o gozo pelo sentido”[4].
Leonardo Gorostiza diz que a função paterna é dar ancoragem ao sujeito. Uma ancoragem de duas faces: de um lado identificatória e de outro como reguladora dos modos de satisfação. “Sem esses pontos de apoio e regulação, fonte de produção de sentido, o sujeito cai – literalmente – à deriva.”[5]
No texto “A outilidade do pai”[6], Sérgio de Campos nos lembra que um pai serve como bússola, como guia moral para um filho. Ante uma criança, ele oferece segurança, e serve como fonte de identificação. É “uma muralha alta e espessa, (que) interpõem-se entre a criança e as necessidades vitais, as responsabilidades da vida, as dores do mundo e os riscos de morte. O pai, portanto, serve como uma muralha em cuja sombra o filho floresce”.
Mas se o neurótico usa este Nome-do-Pai para se identificar e também para tornar possível o seu encontro com a satisfação; mas se o neurótico acredita muito neste Nome ao ponto de fazer grande esforço para sustentá-lo como um Nome potente; mas se o neurótico usa este Nome para responder a si o que quer o Outro e poder seguindo a vida nesta crença, sabemos que hora ou outra, este Nome vai padecer, vai falhar, não vai responder com garantias àquilo que não tem medida, nem nunca terá, que não tem governo, nem nunca terá, mas que pelo menos podemos dar um nome: Real.
Quanto à muralha, “com o crescimento da criança, reduz sua altura e sua espessura até o momento em que se pode perceber, por intermédio de suas falhas, frestas e rachaduras, que não é, nem foi, tão resistente e segura quanto se imaginou”[7].
A angústia surge então como uma das possibilidades de resposta ante ao fracasso deste Nome. Deste nome que vez ou outra se torna muito pequenino e impotente. O sintoma também é prova da falha do Nome. O sintoma também pode ser a prova do esforço do neurótico para dar consistência ao Outro. E se o Nome-do-Pai está em decadência na cultura é por pura repetição do que acontece no nível do sujeito, com o crescimento da criança. Talvez tenhamos crescido no nível da cultura, ao ponto de percebermos a falência do pai.
Sabemos que um sujeito até pode se virar bem com seu sintoma, vez outra sofrendo, com angústia, quem sabe... Pode ser que um sujeito não queira nunca abrir mão de seu sintoma, e de seu esforço em dar consistência ao Outro. Felizmente também sabemos que para àqueles que sofrem de um mal a mais (Plus de mal), e que por contingência da vida puderam encontrar um analista, há o que se fazer.
E qual é a operação efetuada em uma análise no que diz respeito a esta nomeação paterna? Seria função de uma análise restaurar a imagem do velho pai? Seria função de uma análise fazer com que o sujeito desconsidere o pai?
Lacan, no Seminário 23[8], traz a expressão l´homme pours-père. Em um jogo com a palavra pours-père encontra-se uma ambigüidade: o pai faz o homem prosperar, e o homem é a finalidade do pai. Somado a estas duas, outro sentido homofônico: pourrir en espérant, que significa “apodrecer esperando”. Assim, na mesma medida em que se pode prosperar a partir do pai, também é possível apodrecer esperando que este Nome continue dando sentido, continue sendo equivalente ao demandado. Que o pai tenha sido útil ao ponto de interpor-se entre a criança e o desejo da mãe; útil em preencher um pouco o buraco sofrido pela extração de um objeto, não permite que se possa esperar que seja potente para sempre, ao preço de se apodrecer esperando.
Sérgio de Campos com sua bela metáfora nos auxilia: “Reduzido a um semblante, o pai faz com que o filho passe a enxergar o mundo por cima de um frágil biombo de papel, sendo esse, via de regra, um momento de metamorfose vivido como luto, em que ele prescinde do muro (do pai) depois de ter se servido dele”[9]. Nem restaurar a imagem paterna, nem desconsiderá-la, mas fazer um nome próprio deste que lhe foi dado como herança. Formular uma pére-version, agora com letra minúscula, sem o peso do Ideal, e também precedida por artigo indefinido (uma) já que pode também ser outra.
[1] GALEANO, Eduardo. A função da arte 1. In: O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2000, p. 15.
[2] LAURENT. Éric. Um novo amor pelo pai. In: Opção Lacaniana, n. 46. São Paulo, 2007, p. 20-29.
[3] VIEIRA, Marcus André. Retrato falado de um totem sem tabu (ou a hipermodernidade sertaneja). In: Latusa, n. 11. Rio de Janeiro, 2006, p. 13.
[4] SOLANO-SUAREZ, Esthela. Gozo. In: Scilicet dos Nomes do Pai. 2006, p. 67.
[5] GOROSTIZA. Leonardo. Autoridade. In: Scilicet dos Nomes do Pai. 2006, p. 25
[6] CAMPOS, Sérgio de. A outilidade do pai. In: Curinga, n. 23, Nov de 2006. EBP-MG, p.74.
[7] Idem.
[8] Conforme referência de Sérgio de Campos. Op. cit.
[9] Idem.